Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Romance pós-moderno

O herói sai. Vive aventuras, volta vitorioso e nunca mais sente o vazio que o assombrava. O herói fica. Passa os dias convivendo com um vazio que não consegue preencher. O herói medita. Sabe que vive um vazio, mas não consegue compreendê-lo. Decide isolar-se e filosofar a respeito. O herói se aliena. Faz de tudo para não viver o vazio que sabe que sente. Pragmático, facilita a existência. O herói sublima. Vive as fantasias que cria para não precisar encarar sua realidade vazia. O herói se deprime. Bebe o dia todo para anestesiar a angústia que o vazio lhe traz. Quanto mais bebe, mais angustiado fica. O herói é sádico. Regorzija-se com o desespero de se saber condenado ao vazio. O herói crê no futuro. Intui que o vazio é algo passageiro e que em algum momento compreenderá o sentido de tudo. O herói é um ingênuo. Sempre diz que é preciso manter a esperança, que os problemas passam e que tudo ficará bem no final, até mesmo a sensação de vazio. O herói flerta com a morbidez. Vive repetindo que a morte é o único sentido da vida, vazia. O herói é raso. Gosta mesmo é de comer em frente à TV, ver sacanagem na internet, jogar videogame, gastar em roupas, frequentar lugares badalados e trepar com garotas de programa. Não há vazio na superfície. O herói caminha pelas ruas vazias. Fala sozinho, chora no escuro, escreve cartas de amor e diz aos amigos que gosta muito deles. O herói decide deixar o povoado. Faz as malas e parte em busca de algo que não sabe o que é, para que ao menos o vazio que o acompanha mude de lugar.

Cachacinha

Cachacinha é comigo mesmo. Hi, sábado, quando a turma combina dominó, ah, é manero. Dou uma beiçadinha aqui, outra beiçadinha ali, menina, vou ficando balão… balão, balão. Tremenda viagem, bom demais. Mas num pode ser essas porcariadas que tem por aí, 51, Velho Barrero, isso aí num presta, fica que parece que a cabeça vai parir. Cachacinha boa mesmo é de Minas, lá de onde é minha senhora. Ah, aí sim. Sempre que vamos ver os pais dela trago uma aguinha benta pra mim. Meu sogro até já separa, me chama assim de canto e fala “Vai?”, hi, eu só digo “É comigo mesmo!”. Ah, é comigo mesmo…

I’m your man

Cena 1
O casal está recostado um no outro, em silêncio, esperando o sono vir. Ele a aperta contra si, encaixando aquele corpo ao longo de todo seu contorno. Ela respira lentamente, acariciando o rosto e os cabelos dele. A cabeça dela está aninhada no ombro esquerdo dele –com a testa, pode sentir os pêlos da barba ainda por fazer roçando sua pele.
 
- E essa barba?
- Que tem?
- Não vai fazer?
- Não.

(Pausa. Ela leva os dedos ao rosto dele, percorrendo os pêlos como se tateasse pela primeira vez)

- Nunca mais?
- Nunca mais.

(Pausa. Ele franze levemente a testa)

-Vou me tornar um pastichere. Um pastichere troskista!

(Nova pausa. Ele espera uma resposta; ela já acatara a decisão)

- Quer que eu faça a barba?
- Não.

(Pequena pausa)

- Quer que eu faça qualquer coisa?

Anticlímax

Distensão de tenista
Mau hálito de dentista
Labirintite de equilibrista

Esclerose de bibliotecária
Paixonite de bancária
Ecologista com malária

Bronquite de pedreiro
Compaixão de açogueiro
Timidez de forasteiro

Anorexia de lutador de sumô
Náusea de estivador
DST de ator pornô

Tendinite de  massagista
Catarata de motorista
Remorso de vigarista

Clara

Sentaram-se em silêncio, mesa do canto. Ela olhava para os lados fingindo-se distraída ; ele sorria resignadamente encarando as próprias mãos cruzadas. Queria entender esse seu interesse todo em mim, disse ela, mantendo o tom com que pedira o chá, no mesmo ritmo em que, em breve, chacoalharia a infusão na água fervente, a indiferença com que escaldava-o também. 

Virou-se para o espelho inclinando a testa e retraindo o queixo. Ajeitou os cabelos, claros como o pedaço de manhã no chão. A luz escalava o pé da mesa calando a vista. A mulher penteava a franja com os dedos, tear de raios. Certamente esperava um elogio, pensou ele.

Não estou interessado em você, disse o homem, expirando um sentimento expirado, exceto pelo fato de que você me lembra muito uma pessoa. A mulher parou. Pelo espelho, sua testa era agora um solo arado, mas o batom continuava no lugar.

E quem seria? Uma pessoa. Que pessoa? Uma pessoa que conheci. Namorada? Mais ou menos. Que você nunca mais viu? Não vejo há tempos. E pretende matar a saudade comigo? Impossível. Nisso concordamos. Mas a verdade é que a mulher relutava em acreditar que se resumisse a uma réplica de objeto de desejo. Deve tratar-se de uma estratégia de conquista, pensava mexendo a colher de prata, relampejando pelas paredes.

Me casei com 22 anos. Cinco filhos, todos homens, mas nunca deixei de querer uma garota. Um dia então conheci essa mulher, essa mulher que você me faz lembrar. Nos apaixonamos e ficamos juntos por um tempo, mas as coisas não deram certo e nos afastamos. Anos depois, soube que tivera um bebê. Nada descobri do pai, apenas que a criança tinha a idade da nossa separação.

Uma menina, aposto! Eu ficava imaginando uma garotinha com cabelinhos de trigo correndo de braços abertos pra mim. Você tem uma menininha!! Sonhava tanto com isso que já parecia uma lembrança desbotada de sol. Quem diria, pai de uma garota! Já tinha até pensado no nome, Clara, clara como a mãe. Clarinha.

Um dia eu estava na fila do supermercado, sábado à tarde, alguém segurou meu braço. Ela. Lindíssima, radiante. Com a sua garotinha!?! De trás das pernas dela, sai uma pequena figura, tímida, se enroscando toda. Loirinha, de cor de rosa?? Uma coisinha miúda, tão pequena. Braços abertos para você?? Finalmente, sua filha! Um menino. Incontestavelmente meu.

Muito além do jardim

A idade adulta é a quebra de todas as barreiras do aborrecimento conhecidas até então. 
Emancipar-se não é fazer 21, morar sozinho, dirigir, financiar; é saber o verdadeiro significado de estar de saco cheio.

Blog novo na área

Segue a estrada

Shit happens

Tropeço 
tudo visto do avesso
o baixo chão sob a mão
Recomeço

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