Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Insondável
Na percepção primordial, as distinções do tato e da visão são desconhecidas. É a ciência do corpo humano que nos ensina, posteriormente, a distinguir nossos sentidos. A coisa vivida não é reconhecida ou construída a partir dos dados dos sentidos, mas se oferece desde o início como o centro de onde estes se irradiam. Nós vemos a profundidade, o aveludado, a maciez, a dureza dos objetos –Cézanne dizia o mesmo: seu cheiro. Se o pintor quer exprimir o mundo, é preciso que o arranjo das cores traga em si esse todo indivisível; caso contrário, sua pintura será uma alusão às coisas e não as mostrará na unidade imperiosa, na presença, na plenitude insuperável que é, para todos nós, a definição do real. Eis por que cada pincelada deve satisfazer a uma infinidade de condições, eis por que Cézanne meditava às vezes durante uma hora antes de executá-la: ela deve, como diz Bernard, “conter o ar, a luz, o objeto, o plano, o caráter, o desenho, o estilo”. A expressão daquilo que existe é uma tarefa infinita.
Merleau-Ponty em “A Dúvida de Cézanne”
Reflexo
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Ai, você deve estar dormindo agora. Com a janela aberta e aquele estroboscópio na parede. Não entendo como você consegue dormir com aquilo dependurado. Tive um ataque de riso pensando nisso. Pronto. Já estou rindo de novo. Tão bom rir… Ontem eu quase nem ri. Andei na corda bamba, um cristal se trincou. Vi uma coisa que nunca tinha visto. Tudo mudou e agora não posso mais voltar. E também não sei para onde vou. Sonhei com você, mas já esqueci. Vou tentar lembrar. Aqui é bom de remanejar os sonhos. Sempre à noite eu dou uma acordadinha, posso tentar lembrar nessa hora, provocar esse sonho. Eu seleciono, é bem bacana. Espero que você não esteja correndo muitos riscos nas suas noites, com aquele estroboscópio. Às vezes acho que sou um pouco insuportável. Ou são eles.
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Não é estroboscópio, é globo. E não é na parede, é no teto. Um dia vai cair, eu sei. Mas nada fica como é. Você não devia ter medo. Porque quando está escuro e a luz dos carros passa pelas frestras, fica tudo refletido. Um planetário sob as cobertas. Mas as coisas bonitas sempre dão medo. Aqui tudo tem mudado. Estou aprendendo como as coisas são. Os cristais, por exemplo. Não é porque trincam que vão quebrar. Eu continuarei aqui. Até que eu mesma trinque. Ou você. Só por favor não quebre, que eu não saberia o que fazer. Posso entrar no seu sonho hoje à noite? Eu também tenho acordado várias vezes, mas sonhado pouco. Ia gostar se você sonhasse pra mim. Posso entrar no seu sono numa dessas acordadinhas. Me procura? Talvez você tenha razão. Deve ser por causa daquele negócio, deve ser por isso que eu não tenho dormido bem. Ninguém relaxa com uma coisa daquela pendurada sobre a cabeça.
In a sentimental mood
Medo de nunca mais voltar a escrever nada de que eu goste. Minha criatividade carcomida. Minhas invenções enferrujadas. Meus temas escaparam pelo buraco da meia. Puídos na gola. Esgotamento. Sou máquina. Pedi para ela perguntar ao elefante e à girafa para que serve tudo isso, que eles devem saber. Sei que ela sorriu. Foi muito lá longe, mas ainda assim é um sorriso com dentes, lábios e tudo isso. Eu, daqui, não digo nada, pois se tivesse o que dizer, escreveria. Mas nem ler consigo. Sumi de mim mesma e sinto minha falta. Sinto a sua falta também. E a nossa. Nunca mais vou me recuperar de certas noites. E nunca mais os cortes de algumas palavras vão cicatrizar. Ma, você ainda vem me ver? Ainda é minha mrs Dalloway? Estou na primeira cena de ”Vanilla Sky”, gritando na cidade deserta. Por que não nos encontramos todos ali na esquina? Riríamos e diríamos que nossa existência se resume às pessoas que amamos e riríamos mais dizendo que nos amamos e que, de resto, nada mais faz sentido. Aí silenciosamente eu diria para ecoar dentro de mim, ‘querido, a lembrança de seus olhos é meu bálsamo, preciso amar você qualquer hora dessas, me avise, pt saudações’. Porque o sol, quando se erguia, era um milagre. Agora, é a aurora.
Território
O homem mais doce do mundo emerge das águas turvas dos olhos por onde navegava à espera da exaustão que, como a linha do horizonte, nunca chega. Sem cansaço nem descanso, ele finda o megulho nas íris de mel e sai, ainda mais doce, molhando de lágrimas o caminho que deixa para trás de si. Cruza os cílios, que se cerram lentamente afagando-lhe as costas, percorre a pálpebra e estira seu corpo sobre a sobrancelha, que acredita ser a síntese do harmônico e do ascendente. Deitado sobre os pêlos, diz que biologia e geografia dão na mesma, que se miram em desbravamentos e têm a compreensão por anseio. Depois corta o intelectualismo (porque editar bem conversas é saber seduzir) e cita um verso chulo, canção popular em que o homem-terremoto arromba barragens-moças causando inundações de submergir cidades. E silencia com um sorriso calado, instante mudo em que só forças as ocultas podem gritar. Então pronuncia um nome, pausadamente, marcadamente, mantendo na boca o mesmo ritmo do deslizar de suas mãos. Sílaba por sílaba nomeia sua terra-corpo com obsessiva devoção. Por fim, finca sua bandeira no território conquistado, estandarte do amor tremulando ao vento, e parte ao macrocosmo. Diz que sua terra agora é lua e que a gravidade se encerra em si. Estava cercado de infinito.
Januário
Se eu fosse mar,
me fazia maré cheia
Deitava-me sobre seu corpo
e lambia a tua areia
Reforma e contra-reforma
Minha casa minguante
revés de um big bang
Antes derramamento,
agora é recipiente;
Movimentos contidos
de expansão contraída;
Meu lar centrípeto
ensimesmado em caracol;
Da dança e do esparramo,
apenas os móveis imóveis
e o suspense estático sobre seus destinos,
angustiantes sentenças de remoção
Pois que há menos chão e mais paredes
(os mesmos quadros, menos tapetes)
Espaços espartanos, cubificados
Memórias esquartejadas em cimentados
Minha sala dormiu Duomo e acordou Berlim
Um todo retalhado por avassaladora vertical
Parindo oriente e ocidente que nem se sabiam existir
Murando o princípio e apartando o meio do fim
Era o Pacto de Varsóvia e ninguém me convidou
Tampouco a RDA me quis como aliada
Agora torço apenas para ter ficado do lado certo
onde a cortina de ferro não cubra minha janela
Dados
Não acredito na matemática. Acima de tudo, não acredito em probabilidades. Não entendo que as coisas tenham 47% de chance de acontecer. Afinal, são apenas duas as possibilidades: sim e não. Tudo tem metade de chance, ou a outra metade. Sobre os tabuleiros, nunca joguei os dados torcendo para que desse o número de que eu precisava, até porque eu nunca soube de qual número eu preciso. Não sei formular meus desejos porque tenho medo de pedir coisas erradas. Então sempre peço coisas genéricas, com ampla margem de manobra. Fico achando que algo dentro de mim vai saber pedir certo, ainda que eu não consiga formular racionalmente de que é que eu preciso. Então, quando é minha vez de jogar, seguro os dados, chacoalho-os nas mãos e arremesso as peças torcendo, mentalizando, ”tomara que dê certo”, sem nunca tentar entender se o número que sai é bom ou ruim. Fico achando que, mesmo quando a casa em que eu caio me diz para ficar uma rodada sem jogar, que talvez aquilo seja bom, que talvez seja aquele o caminho, ainda que torto, pelo qual eu vencerei. O lance de dados. O acaso. Eu e minha estranha fé cética.
Golden
Cabelos caramelados
Olhos de amêndoa
Caminho em campos de trigo
Teu corpo é marcado por uma constelação castanha
Na qual lê-se um destino da cor do sol que vai nascer
Teus abraços cristalizam a saudade
existente antes de saber-se ser
És o âmbar ancestral em estrela cadente
incendiando o céu sem se fazer temer
Da tua língua, cevada;
boemia
Das mãos, melodia;
metais
De face absorta,
és insône
De tudo que sei,
és meu
Da boca, poesia,
me tomas;
Do encontro, metades,
me tens;
Amor clandestino,
desmanche;
Me desfaz
em teus beijos de mel