Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Março, 2007

Graças a Deus é fatal

Trilha: Andrew Bird, Heretics

Algumas músicas vêm com cupido de brinde. Você põe pra tocar e é instantaneamente flechado. Fica lá, sangrando com cara de tonto, como se um pedacinho do segredo do universo o tivesse invadido por dentro. Às vezes nem é paixão fulminante; à primeira tocada, você não dá a menor bola. À segunda, cantarola um pouquinho. À terceira, apaga a luz, deixa a janela aberta e fica flutuando em cada nota. É o ápice.

Logicamente que depois vem o princípio da queda, uma onda de possessividade. Você passa a ter ciúmes daquilo, como se ninguém mais pudesse se esbaldar com o que você descobriu. É, porque você descobriu antes de todo mundo, então é seu. E você tem certeza bisso que foi o primeiro ser humano sobre a Terra a compreender a beleza daquilo, então é justo que passe a ser só seu. Seu e de mais ninguém.

Confesso que me magoou quando um dia, tomando um café na padoca, vi um clipe do Franz Ferdinand passando na MTV. Como assim? Quer dizer que milhões de lares brasileiros também sabem daquilo? É, e deviam saber há tempos. Pior ainda foi quando um clipe do Jet passou num intervalo do Multishow. Multishow, veja bem!! Fiz cara de mulher traída, balbuciando um “não acredito” entre dentes. Meu pai, que estava do lado, se assustou. Fez uma expressão grave, de quem sabe que testemunha algo deveras sério. Pô, era minha música favorita… e as imagens não tinham nada a ver com as que passam na minha cabeça. Como eles foram capazes de fazer isso comigo?!

No dia seguinte, meu pai vem com um recorte de jornal, uma matéria que trazia “indie” no título. Ele disse que não sabia o que aquela palavra significava, mas achava que tinha a ver com “o que tinha acontecido ontem” (o episódio foi sério demais para ser relembrado sem eufemismos). Expliquei que, sim, ele tinha razão, era um tipo de música, como aquela que tínhamos visto no dia anterior. E ele: “Ah… tipo de música? Achei que significasse fazer sucesso sem aparecer na televisão.” Bang.

E esse cara, que eu comecei a gostar antes do resto do mundo, ainda não apareceu na TV. Pelo menos até onde eu sei. Mas tudo bem, porque o que os olhos não vêem, o coração não sente. Ele assobia que nem passarim, toca violino, xilofone e teletransporta pessoas suscetíveis a isso. E por enquanto, ainda é só meu. Meu e dessas pessoas que aparecem no show, mas isso não vem ao caso.

Antes tarde que mais tarde

A música que eu queria ter posto no post aí debaixo:
Husky Rescue, Hurricane

Dorian Gray

“Quando os nossos olhos se cruzaram, senti que empalidecia. Dominou-me uma curiosa sensação de medo. Pressenti que me encontrava face a face com alguém cuja simples personalidade era tão fascinante que, se eu me deixasse atrair, poderia absorver-me a alma.”

Ele me deixava totalmente fora de mim. Eu era completamente louca por ele… mas não daria certo. Nunca dá certo quando as pessoas nos deixam loucas demais.

É… talvez amor e medo se misturem muitas vezes. É difícil saber quando amamos ou quando morremos de medo de alguém.

Morria de medo mesmo, não entendia aquilo. Ele me entorpecia… era uma droga, com euforia, depressão… nada interessava depois que ele ia embora. Claro que não deu certo, e logo depois também comecei a namorar.

Se arrepende de não ter insistido?

Não… às vezes fico pensando que nunca mais vou sentir aquilo de novo, o nervoso, a ansiedade — o medo. Por outro lado, agora tenho a calmaria, que é gostosa também. Eu tinha uma rave particular e agora tenho um dia de sol na praia, com brisa.

É o estável e tranqüilo versus o incompreensível e instigante… meio que a grama do vizinho.

É um dilema mesmo. Não saio mais do sério, mas me divirto, me sinto protegida. É como estar em casa.

Bom, estar em casa nunca é empolgante… “Uuuuhuuuu vou para casa?? O que vc fez hoje? FIQUEI EM CASAAAAA!!! UHU!”

É, mas precisamos de uma casa, porque chega uma hora em que tudo o que você quer é ficar em casa. Engraçado que alguns dos melhores momentos da minha vida eu vivi em casa, quando era pequena, com meu irmão. Lembro de mim tão feliz, mas tão feliz… E agora tenho momentos em que sinto essa felicidade de novo. E fica tudo como era antes, quando eu não sabia o que era o mundo e vivia feliz naquele outro mundo que eu criava com meu irmão.

De Profundis

É, é meio deprê, mas nem por isso é menos lindo.
Porque o intuito não é causar uma sensação boa; é causar.

E quando eles lançaram esse CD, disseram que era como ouvir o oceano à noite. Achei pretenciooooso… mas depois que ouvi, entendi melhor. Ou deixei de entender o que achava antes e não pus nada no lugar, deixando tudo parado em queda livre.
Porque às vezes o mais bonito é justamente o que não faz sentido nenhum. É o que causa. O que encanta porque causa sem querer.

Arcade Fire, My body is a cage

Meu corpo é uma jaula
Que me impede de dançar com quem eu amo
Mas minha mente segura a chave

Meu corpo é uma jaula
Que me impede de dançar com quem eu amo
Mas minha mente segura a chave

Estou aqui sobre o palco
De medo e de dúvidas internas
É uma peça horrível,
Mas eles aplaudirão de qualquer maneira

Estou vivendo em uma era
Que chama a escuridão de luz
E apesar de minha língua estar morta
Suas formas ainda preenchem a minha cabeça

Estou vivendo em uma era
Cujo nome eu não sei
E apesar de o medo me manter em movimento,
Meu coração bate bem devagar

Meu corpo é uma jaula
Nós recebemos o que damos
Só porque você se esqueceu
Não quer dizer que perdoou

Estou vivendo em uma era
Ainda girando na luz
Mas quando chego na saída
Não há ninguém à vista

Estou vivendo em uma era
Percebendo que estou dançando
Com quem eu amo
Mas minha mente segura a chave

Ainda perto de mim
Minha mente segura a chave
E liberta o meu espírito

Mergulho

Quando entrei, havia apenas o barulho da TV ligada, baixinho. Os últimos passos antes que a porta se fechasse foram de alguém que caminha sobre a prancha. Quando a porta bateu, ensurdeci. Fui atirada ao mar. Ouvia apenas aquele apito de pressão no ouvido.

Afundei rapidamente. A paisagem era de objetos náufragos. A cama, as máquinas, os alertas ritmados, as luzinhas vigilantes. Tudo o que havia de vida era aquele pequeno tórax subindo e descendo numa respiração profunda. Tão profunda quanto aquele mar surdo.

Comecei a me mover com tanto cuidado, tão lentamente, que era como se eu nadasse. Sentei na beirada da cama, mas não senti gravidade nenhuma. Flutuava de leve ao mesmo tempo em que era comprimida pela pressão de agonia que inundara aquele quarto.

Foi então que ele piscou, tentado ver quem estava ali. Toquei sua testa num gesto de balé aquático. Ele então fechou os olhos devagar, como uma alga que se deixa balançar pela corrente marítima.

Fiquei observando seu corpo com a curiosidade e o cuidado de um escafandrista. A mão aberta, repousada sobre o abdôme, tinha a preciosidade de uma estrela-do-mar. A outra, fechada, guardava algum segredo de caracol. No rosto, uma expressão de superfície límpida. Corpo de paisagem pacífica. Dor de silêncio.

Foto: Sxc

I’m asking you, baby

Nem pense em sair com amigo de quem você já ficou.
Se não rolar paixão à primeira vista, é porque não rola nada.
Virar amigo também não dá certo, melhor desencanar logo.
Ainda mais se ele disser que nunca tentaria na-da com você.
Sexo no primeiro encontro em hipótese alguma.
Mas se rolar, peloamorde não durma junto, de jeito nenhum!
Nada que comece no carnaval tem a menor chance de ser levado a sério.
Principalmente se a pessoa for do tipo que gosta de farra,
tipo dj ou coisa que o valha.
Universitário então, nem pensar.
Cantada barata também nunca funciona.
E piadistas são um desastre.

Poizé.

Ou não

E eis que uma leitora (a-do-ro!!) sugeriu fazer as top 3 maneiras de se conquistar um homem. Bom, as feministas que me desculpem, mas eu acho que não dá para fazer isso. Ou, no mínimo, é bem mais difícil do que conquistar uma mulher. As mulheres são mais suscetíveis a serem conquistadas e, na maioria das vezes, quando topam sair uma vez com o cara normalmente topariam sair outras. Homem não; às vezes é só aquilo mesmo e não há ternura que amoleça um coração masculino decidido a se manter duro. As mulheres resolvem se o negócio tem chance de começar, mas são os homens que determinam se vai ou não pra frente. Ainda assim, acho que tem uns cuidados básicos que ajudam na empreitada –ainda que seja só sinalizar para que o cara siga adiante.

1) Exterior conta pra caralho, bem mais do que pra elas. Não precisa ser a beleza popozuda, embora essa agrade bastante também, mas tem que ter alguma coisa de charme, de jogo, covinha, brilho de brinco de pérola. Cada uma tem um tchans mais tchans que o das outras, umas são elegantes, outras descoladonas, outras divertidas, tímidas, lindas, gostosas, manhosas, misteriosas, inteligentíssimas etc; negócio é descobrir logo qual a carta na manga e usar sem culpa. No mais, sorria muito e olhe nos olhos de quando em quando (nossa, acho que vou pedir emprego na Cláudia…).

2) Demonstre interesse, mesmo que esteja pensando em zilhares de outras milicoisas. Tudo o que ele diz é ótimo e sua cara indica que você está realmente prestando atenção no blablá, mesmo que sua cabeça seja um céu em que passeiam brancas nuvens dizendo que você deveria mesmo ter feito depilação, que esqueceu de ligar pra sua irmã e que ele daria um ótimo pai (ugh!!). Articule com o que está rolando, não só com a sua infinita imaginação. Ah, outra boa é não minar a imaginação deles. Deixe que acreditem que todas as suas lingeries são exóticas, que você faz freqüentes guerras de travesseiros com as amigas, que ele é praticamente o primeiro cara com quem você sai.

3)Contenha a ansiedade. Não pressione demais nem ache que ele sabe dos seus planos de casar dentro de três meses –até porque talvez,taaaalvez, ele nem concorde com isso (sinto muito). Então pegue leve. E seja leve. Reclame pouco, ria muito e se preocupe o menos possível. Tipo: seja o mais parecida com eles quanto for possível acrescentando o que você tem de melhor (ai). Guarde a TPM, as cobranças e as verdades a serem jogadas na cara (você sempre saberá quais são) para um estágio mais avançado, ou, se você for de uma espécie evolutivamente mais desenvolvida, não jogue isso no caldo jamé. A biologia, porém, dificilmente lhe abrirá as portas de todo esse paraíso.

ps: esse post me deixou deprimida…

Trilha: Nick Cavee e Anita Lane – Bedazzled
Foto: Romain B. James

Vai por mim

Talvez porque eu esteja lendo “Alta Fidelidade” ou por alguma outra razão que me escapa agora: top três maneiras de conquistar uma mulher (qualquer uma não, mas pelo menos 15 de cada 17).

1) Finja que está interessado. Pergunte bastante e faça parecer que tudo o que ela diz é ótimo e que a vida dela é realmente incrível, oh puxa, como você é bacana, nunca vi nada assim! Diga que gostaria de sair com ela um dia desses para fazer alguma coisa que tenha a ver com algo que vocês conversaram, tipo, “ah também sou super a fim de ir no Ceasa uma madruga dessas!”. Aí você some por um tempo. Não muito, só o suficiente para ela se perguntar o que aconteceu com todo aquele entusiasmo e se será que foi algo que ela fez de errado. Ela vai pensar em você, e isso é 90% do que precisa acontecer. Com sorte, talvez ela até te ligue. Então você reaparece, do nada, propondo fazer a tal coisa que parecia ter ido pro brejo. E ela irá aceitar. Outra variante é, em vez de sumir, aparecer normalmente e agir tão normalmente a ponto de ela se sentir insultada. You lost that loving feeling… ela também ficará se perguntando o que foi que houve e de alguma forma também pensará em você. Bingo.

2) Banque o perturbado. Se estiver na lama, ótimo, ajuda bem. Senão, apenas finja. Lance olhares agoniados, se encoste nas coisas mais próximas, diga de repente que precisa ir embora e simplesmente vá, fique olhando para o vazio com uma expressão nula ou faça cara de alguém que acabou de voltar do triathlon. Comece histórias e não termine nenhuma delas, e deixe subentendido que você está com o coração dilacerado, que foi cruelmente chutado e que está deprimido, com ocasionais pensamentos sobre como acabar com a própria vida. Mas diga a ela pra que não se preocupe. Ela certamente se preocupará. Aí você liga um dia como quem não quer nada e chama-a para fazer alguma. Esteja certo de dizer alguns “deixa pra lá” e “você não iria querer mesmo” algumas vezes antes de concluir a proposta. Quando encontrá-la, esteja pronto para receber o abraço mais caloroso da sua vida, talvez acompanhado de um sorriso quase patético, aquele que os pais dão quando o primeiro filho começa a andar. Já ganhou. Funcionará peculiarmente bem se ela tiver tendência a pegar coisas na rua pra cuidar.

3) Bajulação em nível máximo. Diga o quanto ela fica bem de azul e o quanto gosta das coisas que ela usa. Mande mensagens, faça gracinhas e pequenas surpresas, tipo I just call to say I love you. Dê uma flor ou um bombom quando se encontrarem, ainda que seja no elevador do prédio; cara-de-pau é seu maior triunfo. Esse plano requer um prazo um pouco mais extenso, mas os resultados também podem durar num médio e quem sabe até longo prazo. Especialmente se você disser coisas que nem você sabe se acredita mesmo, mas que sabe que ela gostará de ouvir. Invente uns planos e inclua-a em todos eles. Mas é imprescindível que tudo seja feito com bom-humor e uma leve atmosfera cafajeste, tipo um sorriso discreto no final que delate que você está ali simplesmente para bajulá-la. Seja quase brega ou até brega mesmo de vez em quando, porque, afinal, o amor é meio brega. Altere coisas doces e extremamente doces sempre que houver uma chance. E se não houver, crie. Outro ponto importante é investir no exagero. Por exemplo: supondo que você diga uma bobagem e que ela retruque dizendo que é por essas e outras que ela deveria se casar com um engenheiro, e não com você, não perca a deixa. Diga que sim, que você é engenheiro. E ela, sabendo que você não é, dirá: é mesmo? E você responderá algo inacreditável como: sim, engenheiro do nosso amor. Isso a fará rir memoravelmente e talvez até a faça perguntar o que ela é nesse caso. Diga então que ela é a arquiteta (será de um efeito estupendo se ela realmente for arquiteta, mas também funcionará bem se ela for dentista, professora, entre outras ocupações). Diga que ela é arquiteta e que basta que ela faça o projeto para que você dê um jeito de construi-lo. E se por acaso ela perguntar quem fará a decoração, responda seriamente, olhando nos olhos: os nossos filhos. É batata.

Trilha: Dreams, TV on the Radio
Foto: The Cool Hunter

Charme e funk

Eles meio que disseram que…

A diferença entre homens e mulheres é provavelmente a mesma que existe entre prosa de poesia. Além do que, homens se movem em manadas e mulheres, em cardumes. Pode ser que o segredo esteja nos joelhos ou em alguma outra coisa que fique no meio das pernas.

Talvez só mude de endereço, elas numa bem-decorada casinha em Vênus; eles, num muquifo fedorento em cima de uma padaria de Marte. Convivem na Terra e é por isso que dá tanta confusão. De vez em quando também dá certo, e esse descompasso acaba virando o vigor do casal. Isto é, se homens compreenderem o quanto elas são simples e elas entenderem o quanto eles são complexos.

Basicamente, eles têm torneirinha, são mais sujinhos e fazem piadas quando completam 24 anos. Já elas queimaram sutiãs e de alguma forma talvez isso tenha contribuído para que se tornassem mais justas e tivessem melhor bom senso.

E “ela” disse:

nossa, estou numa fase ótima…
sabe amiga não sei se depois dos 40 a gente desencannes de tudo (porque não tem mais conserto) e parte para a evolução espiritual (que é o único caminho), mas…
temos sim pontos ‘g’ e MAIS de UM…
ai….
perdão meninos…
estou muito desbocada, íntima e gozada (thanks God!!!)…

Acho que isso explica bastante coisa.

Trilha: Funky Yeah, Curly Moore & the Kool Ones
Foto: The Cool Hunter

Não quero nem ver

Quero um emprego que aos 30 me faça parecer ter 40 e que aos 40 me dê cara de 50, pra envelhecer logo e não ficar sofrendo ao longo de décadas com cada ruga que me aparecer. Uma rotina que me faça acordar e sentir dor na boca do estômago de nervoso de pensar que é mais um dia para se encarar tudo aquilo de novo ou que me desperte no meio da noite com aflições do que esqueci de fazer.

Que se tenha hora para entrar, mas nunca pra sair e quando sair, tarde, me convencer a comer qualquer porcaria simplesmente porque estarei morrendo de fome e, aos meus olhos, tudo será maravilhoso, ainda que horas depois eu acorde passando mal por causa da fritura, da gordura, do vazio.

Que eu esteja sempre com pressa para jamais ter tempo de analisar nada e que nos momentos livres eu durma mal e pouco. Que roa as unhas, desenvolva algum tique estranho, tipo ficar falando “hein” mesmo quando ninguém tiver me perguntado nada.

Ou piscar nervosamente de um olho só como se um cisco estivesse nadando de braçadas na minha bola ocular ou ainda ficar sacudindo uma das pernas como um filhote de Elvis perneta.

Ter cãimbras nos pés por viver com os dedos dobrados de tensão e ocasionais crises nas costas, cuja dor se espalha pra cabeça e faz as têmporas parecerem bicos de panelas de pressão.

Sem perguntar, sem questionar, sem descansar, sem se olhar muito, sem intervalo. Não há tempo pro intervalo e, se você tem tempo, pode começar a estranhar desde já, porque tem alguma coisa errada com você, meu caro.

Trilha: The Hardest Walk, Jesus and Mary Chain
Foto:
Magda Rzym

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