Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Julho, 2007

Falávamos…

Sim. Falávamos sobre o segredo do universo, porque, ao que parece, ele guarda mesmo muitos segredos. Estávamos oficialmente eu, Karen e as sul-coreanas, mas elas não entram mais na história por não terem sequer levantado os olhos de seus indecifráveis guias de viagem em sul-coreano quando o segredo do universo se big-bangueou naquele quarto.

De maneira que estávamos eu e Karen. Não, não era a Karen O., vocalista do Yeah Yeah Yeahs e a única mulher por quem já me apaixonei. Nunca diga nunca, mas também deve ser a única por quem irei me apaixonar até o final dos tempos. Acho. E olha que eu nem gosto do som deles, mas a imagem daquela mulher sobre o palco ficará colada screensaver na minha retina através dos anos.

Então. Deitada de barriga para cima e bastante relaxada, por razões previamente explicitadas, eu conversava no escuro com Karen. A idéia era dormirmos, daí o escuro. Mas as frases iam se encadeando uma na outra e na outra e na outra, como o palhaço de circo que tira da goela aquele amontoado de panos amarrados. Ela estava chegando aos 30. Falava do medo da solidão, do terror de não encontrar com quem compartilhar a própria alma. Disse que tentou, muito, repetidas vezes, encontrar quem pudesse amar e quem se dispusesse a amá-la. Em vão.

Passou anos com a idéia fixa de se arranjar antes da traumática virada, que para ela era uma ruptura tipo, assim, a própria morte. Em síntese, queria alguém ao lado para atravessar o vale balzaco da morte (descobri que as risadas têm o mesmo som quando soltas no escuro). “Você não tem mais dez anos”, era o arremate da mãe cada vez que uma história não dava certo. O resto era culpa. Culpa pelas escolhas, pelos fracassos, pelo telefone mudo, pela falta que a torturava. Por querer mais, por desejar o melhor para si, por não se satisfazer, por ter sede, por intuir que merecia e que teria. Havia algo reservado para ela e, para botar as mãos nisso, ela achava que tinha de persistir, investir, se doar, relevar, tentar, tentar de novo, passar por cima, se esforçar, e um pouco mais, chorando estátua em risos falsos.

E então? Então, ela disse, deixei de querer. Não como quem se priva de desejar guardando rancores do mundo, mas como quem se distrai com algo belo e se esquece. Seus dizeres rasgaram o escuro como uma estrela cadente. Tenha sempre coisas belas à vista, coisas sempre belas aos seus olhos. Pequenas coisas belas, coisas à toa, ainda que sem importância. Ainda que de vez em quando você precise inventá-las. Deixe-se encantar com o que é pouco. Distraia-se com essas pequenas belezas. No momento em que você finalmente se esquecer do que procura, deixará de olhar para frente com tanta angústia, de franzir a testa mirando o longe com tanta ansiedade, e poderá finalmente olhar para os lados e constatar que sempre esteve cercado de coisas belas. Porque o objetivo é o próprio caminho, e a distração, a única maneira de se caminhar.

Conversa fiada

Eu tava no Assai, municiando a casa de mantimentos.
Assai?! Eu asso, tu assas, alguém assai?
É. Eles assa aí.
HAHAHAHAHAHAH
É um mercado atacadista que tem aqui perto. As coisas são todas gigantes.
… lógico, eu assaí, eles assaí.
Eu achei mais graça em você achar graça.
Pois eu achei MUITA graça
Pois é.
Tipo aquela risada que vc tenta fazer cara séria, mas escapa.
Sei bem qual é.
Eu quase ri, de tanta graça que achei.
Voce ia achar graça no mercado em si.
Provável.
As pessoas andam com carrinhos tamanho “rei momo”. E há empilhadeiras por todos os lados.
Rei momo?? É alguma coisa em saquinho?
Como assim? “Em saquinho”?
(pausa)
HAHAHHAAAHAHAH… eu li TOMANDO rei momo.
Hahahah
Ok, agora eu tive de rir mesmo, todo mundo viu.
Levanta a mão esquerda e solta o tradicional “mal aê galera”
Preciso me recompor, sua janela permanecerá fechada por alguns instantes.
… malaí.

Karen

Naquela noite (sempre acho engraçado quando, nas missas, os trechos bíblicos começam com “naqueles dias” ou “naquele tempo”… morro de vontade de começar meus textos assim). Bom. Naqueles dias, eu vi todo o segredo do universo bem na minha frente, tão óbvio que dava para tocá-lo com o dedo.

Eu estava deitada, barriga para cima, numa cama que não era minha, mas alugada. Era o andar de cima de uma beliche cujo andar de baixo não tinha ninguém, o que foi extremamente tranquilizador para o meu sono. Isso porque, recentemente, fui acometida por uma paranóia muito particular: medo de dormir em cima e, no meio da noite, fazer xixi em quem está embaixo. Olha que eu nunca sofri desse tipo de problema, nem quando criança, e nada aconteceu que justificasse tal receio, exceto alguns pequenos excessos de cerveja na etapa alemã da prova. Mas, enfim, há de se aceitar que o racional não governa todo o território.

Negócio é que eu estava totalmente relaxada naquela noite porque ninguém dormiria embaixo de mim. E essa foi uma das razões pelas quais o papo fluiu tão bem. Minha interlocutora estava deitada no canto esquedo do quarto, numa cama sem beliche. Fazia poucas horas desde que me vira nua. Não, não foi nada sensual. Eu não sabia trancar o banheiro, e as sul-coreanas, que prometeram que não entrariam, não tiveram a gentileza de interromper aquele torcer da maçaneta. E foi assim que eu e a Karen nos conhecemos.

Quando eu saí do banho, ela me pediu desculpas e, rindo, disse que não tinha visto nada. Eu queria ter dado uma resposta à altura, daquelas ligeiras, sarcásticas, irônicas, palavras de metralhadora, mas ela tinha sido tão espirituosa que não havia nada que eu pudesse dizer para melhorar o que havia sido dito. Desconcertante. Quando isso acontece, aprendi que o melhor a fazer é se ater um pouco mais naquela pessoa.

Em frente ao espelho, eu secava meus cabelos com a toalha, enquanto, pelo reflexo, ela me contava como foi ficar tanto tempo longe de tudo. Fazia dois anos desde que saíra de casa e agora faltavam apenas poucas semanas para voltar ao ponto de partida. Abriu um pacote de bolachas e, mastigando, despretensiosa, resumiu a angustiante distância entre viajantes e seus faróis. “Sinto que coloquei minha vida em espera, e que ela está lá, parada, aguardando a minha volta. Ao mesmo tempo, sinto como se o tempo corresse mais rápido na minha vida do que na dos que ficaram, como se o tempo estivesse passando só para mim”.

Ficamos em silêncio, chocolate com limão entre os dentes, pontas dos dedos meladas e uma intimidade instantânea completamente injustificável. E isso tudo foi antes de eu visualizar o segredo do universo.

Deslocamentos

Para enxergar bem, é preciso enxergar de longe. Quanto mais longe, melhor, porque é aí é que se vê de verdade. É como uma paisagem impressionista, que de perto é um amontoado de pinceladas coloridas, mas de longe são flores, rostos, rios, reflexos sobre as águas.

Hoje, oficialmente, estou voltando de férias, período em que dei uns passos para trás e vi meu quadro mais de longe. Vi coisas que de perto não se enxerga. Nada de “minha vida não faz sentido”, porque ela faz, e bastante. Gosto muito dela. Gosto também de quem eu sou e de quem venho me tornando. Mas vejo que a composição, minha e da paisagem, ainda está longe de estar pronta. E há a certeza, tão encantadora quanto angustiante, de que tudo pode ser.

Fiz um mochilão pela Europa, meu segundo. Logo no avião da ida, li um negócio sobre o qual pensei a viagem toda, e continuo pensando. Era uma entrevista que saiu na Ilustrada com a Tainá Muller, atriz do filme “Cão Sem Dono”. Ela dizia que a geração dela, da qual eu faço parte, vive um dilema que é ter tantas opções que às vezes fica difícil conseguir sair do lugar. O mundo ficou tão pequeno, as culturas se aproximaram tanto, os hábitos de globarizaram de tal maneira, que os deslocamentos passaram a ser relativos. Não é preciso sair do lugar em que se está para conhecer outros, mas também não é mais possível ficar retido num só lugar. É uma inundação à qual somente as pessoas-esponjas sobreviverão, os que forem capazes de absorver muitos mililitros de realidades líquidas.

Baldes de realidades me foram despejados nas últimas semanas (espero que eu tenha sido esponjosa o suficiente para garantir minha passagem pela seleção natural pós-contemporânea-pop-hype-wi-fi-em-tempo-real). A foto acima é de uma das mais incríveis: sob a torre Eiffel, chuto que uns 3 milhões de pessoas comemoraram o feriado de 14 de julho, queda da bastilha. Queima de fogos com trilha sonora. Arrepio, vida à flor da pele. A certeza de que, entre esses deslocamentos todos, o limite entre sonho e realidade, projeto e concreto, crença e certeza também se torna mais fugidio.

Óbvio, mas nem tanto

Vida não é coisa de ser resolvida, é coisa de ser vivida. O que se chama viver é, precisamente, o espaço entre o problema e a solução. É que vem antes (aliás, a solução mesmo não chega nunca, é só miragem para cruzarmos desertos). Vida é o que há entre o início e o ponto final. É campo de duelo onde sonhos a galope espetam soluções e seguem seus caminhos a passos largos, deixando-as para trás, inúteis, hemorrágicas, sangrando até a morte.

De regresso.
Sim, maravilhoso, obrigada por perguntar…

Sorry

Nao ta dando pra blogar nada… acho que a programacao normal so volta dps do meu regresso, desculpem pelo transtorno.

Oui, je suis ici!!

Acordei em seus bracos e me pus em voo, passaro saltando do ninho, sai de repente. Em horas, respiracoes, antes separadas pelo espaco de um beijo, afastaram-se oceanos. Na pressa, esqueci meu calor nos seus lencois e levei seus pelos deslizando sob meus dedos. Embarcada, a milhoes de metros sobre tudo, me sinto guiada pelo satelite das suas lembrancas, processando sinais de doces memorias a cada vez que voce se poe a pensar em mim.

PSs:
1) Os comentarios aparecem: fulano a dit… mto emocionante!
2) Rita, bela escolha de vida… bonne chance!
3) Sorry pela falta de acentos e quetais
4) Tambem fico devendo musiquetas e imagenzetas
5) E mto mais poetico clicar em Publier le message

Analista de sistemas

Uma mesa de madeira na calçada. Sol batendo contra, vento a favor. Palitos girando e quebrando, estalos intercalados por goles de chope.

Não sei gosto dela. Quer dizer, eu gosto, mas…
Mas o quê? Tem outra pessoa?
Não, não tem. Não tem ninguém.
Então?
É morno. É bom, mas é morno.
Morno? E você queria o quê? Olha, esse amor de novela aí, não é bem assim que funciona. Rotina mata, tá pensando o quê? Se você conseguir uma rotina gostosa, pô, já uma puta felicidade. E ó: felicidade é uma coisa banal.
Felicidade morna.
Não é, não. Você acha que vai rolar frio na barriga todo dia? Um tesão mortal toda hora? Orgasmos múltiplos toda a semana, juras de amor no almoço, olhar apaixonado no meio do posto de gasolina, um beijo tórrido do meio da rua… as coisas não são assim, não são. Não adianta me olhar com essa cara, não são mesmo.
Tá querendo dizer o quê? Pra eu encostar de maridão e beleza?
Claro. Você acha uma mina bacana, do bem, cabeça boa, vocês fazem uma parceria bacana, conseguem coisas juntos, contam um com o outro… pronto. É isso. Isso é que é importante, ninguém precisa de paixão pra viver.
Eu preciso.
Precisa nada. Isso você aprendeu na novela das oito, isso não é real.
Meu, que papinho mais tiozão.
Ouça a voz da experiência. É assim que as coisas são. E tudo bem, tá bom assim.
E se não for ela? E se eu não gostar mesmo dela?
Bom, aí só tem uma maneira de descobrir. Um jeito que não tem erro, é tiro-e-queda.
Qual?
Perdendo.
O outro riu.
Verdade. Pior é que descobri que gostava de todas as que eu perdi.
Mané.
Pelo menos eu passei a ter certeza de que gostava. Já você…
Não vou perder, vou descobrir antes.
Não vai, não. Não dá. Tem de perder pra saber o que perdeu. E espero que, quando você perder, descubra que não gostava dela mesmo. Porque pior que sentir a vida morna é viver com dor-de-cotovelo.

Get myself into it

Então, aí que é. Porque não é justo viciar as pessoas num blog e de repente deixar todo o leitorado à deriva. Hã hã. O Volu segue, mas o ritmo muda um pouco. É que tô em férias mesmo. E mais: estarei viajante. Bem viajante mesmo. E bem em breve. O lado bom é que, se eu escrever, sairão cousas ótemas. O lado ruim é justamente o “se eu escrever”. Mas pretendo. Pretendo muitíssimo. Vamos ver o que sai. Continuem visitando nossa cozinha. Alguma coisa sai. Nem que seja um misto quente.

Era pra ser o Luiz Melodia, mas beleza

Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.