Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Janeiro, 2008

Implicância é quase micose

Ai. Eu detesto você. Pronto, falei. Falei, falei. Tenho o-je-ri-za a você. E olha que isso é difícil. E olha que eu até tentei evitar. Mas parece que implicância não aceita argumento. Porque implicância é coisa burra ou supraracional. Implicância é quase micose, da mesma forma que amizade é quase amor. Agora é essa coceira, esse incômodo, esse constrangimento de encarar a cara da moléstia. O grau três da irritação foi recentemente ultrapassado quando disse que o governo não devia mesmo distribuir pílula do dia seguinte, que era só o cara gozar fora. Não obstante o brilhantismo do raciocínio, ainda completou: “Se bem que isso é coisa pra velhos marujos. Rê rê rê”. Ai.

R$ 834

É quanto ganha um PM em início de carreira. Subindo e descendo morro, tomando e dando tiro, saindo de casa disfarçado para os vizinhos não desconfiarem de que é policial. Inviável.
Mas salário alto não é garantia de fim de corrupção, vide a excelentíssima ministra Matilde Ribeiro, que, com salário de R$ 10.700, gastou mais R$ 14.300 por mês. Por mês. Todos os meses. De tirar do sério.
Aí os PMs reclamam do salário, com razão, mas, como são atrelados ao Exército, reclamar é crime de insubordinação. E também não dá para quererem garantir o deles quando há soldados, também sob a tosca estrutura salarial militar, que estão se ferrando lá no Haiti, morrendo inclusive, por uma miséria do mesmo calibre. Delegado de polícia não fica muito acima de R$ 1.000. E um monte deles tem carro importado e casa na praia. E agora a PM fica aí, agonizando, em véspera de Carnaval, quando a bandidagem comanda, superoficialmente, a maioria das cidades, em desfiles milionários patrocinados pelo jogo do bicho, pelo tráfico ou atrelados a enredos de marketing encomendados. A segurança está, como sempre, dependendo da boa vontade dos bandidos. Tudo errado.

O cupido veste sunga

Um cupido aponta sua flecha e mira uma jovem dama. Na ponta da flecha, um pênis de borracha. Dourado. O alvo: a vagina da moça. Em vez de uma túnica esvoaçante, o cupido veste sunga, uma dessas de stripper. E com direito a ereção. Logo ao lado, um tiranossauro rex se inclina em direção à sua presa, uma moçoila Barbarella. Em vez de abocanhá-la, o bicho se inclina para fazer um sexo oral, no melhor estilo paixão de Godzilla.
Imperdível. Tem que ir. Heaven to Hell, David LaChappelle, no Mube.
Celebridades e prostitutas. Catástrofes paradisíacas. Sagrado e profano. Divindades encarnadas em personagens das ruas. Personagens das ruas reverenciados como deuses. Luxúria, luxúria, luxúria. Bizarro e obscuro; atração e repulsa. Cores berrantes, saturadíssimas, metralhadas por focos e ofuscamentos de luz, muita luz. “O bom gosto é a morte da arte”, ele diz.

Pintei minhas unhas de rosa.

Eita menina arretada!

A doida cismou que bateu o pé e foi atrás:
Dani Arrais entrevista Mallu Magalhães.
Blog Power!

Crescente

Site dos Strokes reformulado. Álbuns representados não por suas respectivas capas, mas por imagens que brincam com os marcos de evolução da banda. Porque mais importante do que saber uma coisa, é saber o lugar daquela coisa dentro de um contexto, de uma história, de uma teia de relações –pelo menos assim disse o Marcelo Coelho.
O significado e a importância das coisas não residem nas próprias coisas, mas no lugar que ocupam dentro e fora de nós. A contextualização
é uma forma de reconhecimento. Identificar por extensão e associação é apreender os reais significados. Apenas dizer não significa explicar; é preciso pôr no mapa, marcar um risquinho na linha do tempo; “Você está aqui”.

Vem nimim

Musas do Carnaval. Nada é tão antagônico como essas duas palavras juntas, musa e Carnaval. Carnaval é peito de fora, bunda balançando, tapa-sexo, salto plataforma, shortinho rasgado aparecendo a dobra da coxa com a bunda, pele brilhando de óleo, suor e purpurina, sorriso fake e rebolado pornográfico. Musa não tem nada a ver com isso. Musa é anzol que engancha na boca da presa e ainda que rasgue um pouco seus lábios, a presa não consegue se soltar –ainda se sente grata por ter sido fisgada, arrastada por quilômetros e quilômetros submarinos. A musa vai além dos limites do corpo. É uma voz, um perfume, uma textura de pele. Uma alma. É sutilmente profunda, em provocações intensas dos cinco sentidos, embaralhando padrões anteriores e estabelecendo uma nova ordem de degustação do que se descortina.

Não são musas:
Namoradas do Marcos Paulo (diretor da Globo que dá nome a troféu homônimo, entregue aos garanhões que trocam de gostosa na mesma velocidade em que devoram um saco de pipocas)
Atuais, exs ou futuras BBB
Dançarinas de trios elétricos, grupo de forró, cantores setanejos, Faustão, Raul Gil e afins
Praticamente nenhuma coelhinha da “Playboy” (salvo raras exceções, como a recém-coelhinha Juliette Binoche)
Praticamente nenhuma rainha de bateria (não sei se são exatamene musas, mas a Valéria Valença ao vivo é realmente impressionante e qualquer foto da Grazi Massafera merece ao menos cinco segundos de apreciação)
Marisa Monte. Chata. Ar de superioridade que não se sustenta.

São musas:
Maria Bethânia. Não é uma pessoa, é uma divindade, presença que se expande a níveis estratosféricos.
Cat Power. Impossível ficar impassível depois que o timbre dela entra na corrente sangüínea, principalmente nas interpretações mais dylanianas.
Feist. O humor dela é uma das coisas mais charmosas que eu já vi, culminado com aquele jeitinho francesinha.
Carla Bruni. Não é top cantora nem top atriz nem top nada e, mesmo assim, impossível de ser ignorada. Sarkozy é só a bola da vez de uma extensa lista de homens perdidos. Até meu querido Clapton já desandou por causa dela.

Sobre as “novas musas indies brasileiras”: a Mallu Magalhães é fofa e tal, mas não sei. Não me fisgou. Sou mais, por exemplo, a Tulipa, do Pochete set, que tem um timbre extremamente original.

Alzira

Aí, menina… sei que ela se embonecou toda, botou aquele negócio todo, batom, salto alto, um decote, mas um de-co-te, e saiu pra rua. Quando já tava quase na calçada, ali cruzando o portão, ela falou bem alto: “Me deixa, que eu eu tô saindo! Me deixa, que eu tô saindo!”. Ê doida. Coitado. Povo diz que ele era muito ruim pra ela, não deixava a mulher fazer nada. Não gostava de passear, nunca saía de casa. Chato, chato. Aí, já viu. Foi o véi empacotá que duas semanas depois ela já tava toda assanhada. Eita véia assanhada essa aí. Mas tá é certo. Tá certa a véia, tem que ser assanhada mesmo. Quem é que vive assim, dentro de uma casa? Diz que agora é assim. Todo sábado, pode escrever, todo sábado ela sai. Vai em baile dançar colado, vai jantar com os paqueras dela aí –e às vezes até traz um ou outro pra casa, a danada. E toda a vez que ela sai, antes de cruzar o portão, ela já vai avisando logo o defunto, que é pra ele não se assustar: “Me deixa que eu tô saindo! Vou dançar, namorar, beijar na boca… e você me deixa! Me deixa que eu tô saindo!”.

Não diga

Não sei nem falar. Desaprendi. As palavras soam tão banais às vezes. Tão imprecisas e impotentes. Desimportantes. Fico em silêncio. Mas meus olhos, meus olhos falam por mim. Eles sempre falam, assim, quietos. Falam desenhando. Meus olhos de caleidoscópio. Cada vez que pisco, forma-se um novo desenho. Uma nova cor. Fico assim, olhando, com minhas retinas de cinematógrafo psicodélico. Fico olhando esses olhos diante de mim, olhos onde me perco e me reencontro, esses olhos sem começo nem fim. Tão negros que as pupilas já se perderam na escuridão. Nessa mesma escuridão onde me acolho. Onde se acolhe meu silêncio. Nesse breu, único a responder às minhas palavras mudas. Breu que brilha. E que brilha diferente a cada novo desenho que se forma nas minhas íris caleidoscópicas florescentes. Fluorescente.
Talvez eu tenha desaprendido a falar de tanto olhar. Ou talvez agora eu só consiga falar pelos olhos. Talvez. Será que as palavras se tornaram obsoletas? Não. Não é assim também. Porque da mesma forma que há coisas que só os olhos são capazes de dizer, há coisas que não podem ser tão abertamente declaradas se não forem ditas com voz. Mesmo que já tenham sido infinitamente afirmadas e ecoadas nos silêncios. Mesmo que sejam insistentemente refletidas nesses olhares de jogo de espelho. Ditas, mesmo que seja para escutar que aquilo já havia sido dito antes. Ah, mas isso eu já sabia.

haikai

Olhos de pólvora
Mãos de chama
Corpo em brasa

Sensacional: como ser o próximo Barry White em seis lições

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