Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Março, 2008

Enade

Os elementos abaixo encontram-se a uma distância inferior a 20 cm.
Relacione as colunas de modo a assinalar quais desses elementos, em poucos intantes, terão suas distâncias diminuídas para zero:

1) computador
2) carpete
3) colcha
4) cartão do banco

a) requeijão
b) esmalte vermelho
c) super bonder
d) café

Já mencionei que tenho um blog?

Às vezes estranho o carinho que algumas
pessoas que eu mal conheço têm por mim.
Depois me lembro de que tenho um blog.

Às vezes estranho o carinho que tenho por algumas pessoas que eu mal conheço.
Depois me lembro de que tenho um blog.

Abraços alopáticos: mudam na hora nosso estado de espírito.
Beijos homeopáticos: continuam surtindo leves efeitos no decorrer das horas.

É normal sentir a bochecha formigar
enquanto seca na pele uma saliva que não é nossa?

” “

O cúmulo da TPM: ter vontade de dormir de concha com biruta de posto

Bem-me-quer

#1
- Alô?
- Oi. Passou pela Santos com a Haddock ultimamente?
- Não, por quê?
- São suas.
- O quê? As ruas?!
- Não, as flores. As flores que plantaram lá, são suas.
- Você está me dando as flores do canteiro?
- Tô. Passa lá. Depois me diz se não são lindas.
Eram.

#2
Tinha mania de dar flores,
mas nunca comprava nenhuma.
Dava flores que estavam por aí.
Uma vez ela brincou que dava o maior trabalho receber aquelas flores, e acordou com o apito do celular: “Na sua porta”. Havia um lírio plantado na entrada. Tinha o seu nome escrito.

#3
A primeira vez que o florista da esquina me deu flores era de manhã. Entrei em casa com uma rosa branca se abrindo nas mãos. Da segunda vez, era uma tarde de sábado. Uma rosa vermelha. Ele estava aflito porque, até aquela hora, ninguém tinha levado nenhuma rosa vermelha — ele não gosta dos dias em que ninguém leva rosas vermelhas. Um cara parou do lado e ameaçou comprar, quanto é? Contou as moedinhas, olhou, olhou, mas mudou de idéia, me dá uma daquela. Um gerânio. Laranja. Nos olhamos meio frustados. Ele embrulhou o gerânio – que a esta altura também estava meio desapontado – e, psss, pressentindo a derrota, me chamou, toma, leva logo mais uma. Fomos, resignadas, mas, ao menos, juntas.

E outro dia foi um buquê de amarelas muidinhas. Pra você, ele disse.
Me fingi surpresa, mas a verdade é que vi de longe que elas estavam separadinhas na beirada da banca.
Agradeci.
Mas nunca há obrigada suficiente para expressar
a gratidão pelo trabalho de um florista.

Saltos e cisões

Fico pensando que a vida se bifurca. Que há uma divisão entre o que vivemos de dentro para fora e o que vivemos de fora para dentro, entre o que faz crescer o mundo à nossa volta e o que faz crescer o mundo dentro de nós, entre mental e emocional,  entre pessoal e profissional, entre o que parece muito importante no momento, mas se dilui no correr dos dias, e o que nem percebemos o quanto importa, mas que nunca mais conseguiremos esquecer.

Fico pensando nela, que passou a vida trabalhando de faxineira e empregada doméstica e agora se esforça para fazer o supletivo e realizar seu grande sonho: trabalhar em  telemarketing.

Fico pensando nele, que, depois de chegar ao topo, diz se arrepender de todos os momentos que poderia ter passado perto das pessoas que ama, mas que teve de sacrificar, e hoje, apesar de toda a vida boa que conseguiu, tem também a certeza: não valeu a pena.

Acapulco

It’s a wicked life but what the hell
The stars ain’t falling down
I’m standing outside the Taj Mahal
I don’t see no one around

Plantão de páscoa

Primeiro perguntou se Jesus não poderia ser o morto ilustre da seção de perfis póstumos do jornal. Depois criou uma pequena via sacra imaginária, nomeando cada um da equipe um personagem bíblico. Judas era a chefia, para que fosse malhada ao final do expediente; para Barrabás foi escolhida a única pessoa judia do grupo. Carregava nos erres, caprichava no ’s’ e proclamava o nome como se evocasse trovões –Barrabás –, em exclamações que se repetiram por toda a tarde.

Teve chiliques quando cogitaram pedir carne no jantar, emendando uma história sobre como se livrou de um bofe mala na última Páscoa dizendo que não comia carne na Sexta-Feira Santa.

Depois me chamou de canto para perguntar, com os dedos  rijos tocando levemente o próprio peito, se eu não achava  fulano uma de-lí-cia. Resmunguei que não achava nada demais, ao que ele respondeu, fechando os olhos bem devagar e fazendo bico, “Ai, eu passo malíssimo”. Ensinou que existem lésbicas ativas e passivas –as ativas não deixam a parceira pôr a mão nos peitos delas– e me apresentou os telebambis (acima), realmente sensacionais.

Para coroar, com espinhos, desabafou sobre o ódio que nutre pela colomba pascal, dizendo que prefere comer uma mulher a engolir um pedaço daquilo. Concluiu falando que, da Páscoa, gosta mesmo é dos ovos –e sorriu com uma piscadela.

Ossos e laços

Da primeira vez em que se viram quase sem roupa, era um dia quente assim. Do asfalto, calor de tontura, da testa, suor de respingo, da boca, palavras brecadas pela secura da garganta.

Desciam a rua falando um monte, ele sempre muito mais que ela. Porque tinha a mania de não pisar nas riscas do chão, a voz dele pulava no meio das frases, acompanhando os pequenos saltos que dava. 

A amizade era um varal colorido unindo suas mentes, mas seus corpos não tinham qualquer intimidade. Quando ele a chamou para nadar, em vez de pensar na água fresca, ela corou imaginando os trajes com que se encarariam. Titubeou, sorriu amarelo, mas no dia seguinte caminhava pela borda da piscina com o queixo colado no peito e os óculos de natação balançando na mão para fingir alguma naturalidade.

Encontrou-o sentado,  pés na água, óculos já pregados à cara. Ele disse que usava-os em casa às vezes, porque as lentes eram amarelas e tudo ficava ensolarado. Ela sorriu e sentou-se ao lado, encabulada por não saber se aquele plástico amarelado não passava de uma trincheira para que ele mirasse seu corpo.

De um salto, escondeu-se na água. Emergiu e voltou a olhá-lo, agora de baixo para cima. Aqueles ombros largos sob o sol, tão mais fortes do que tudo o que vira até então, compunham a figura mais próxima do que imaginava ser um homem de verdade. Ao se perceber notado, pulou na água ele também. Propôs uma corrida até o outro lado, para aquecer.  No três, tomaram fôlego e dispararam; espalmaram o azulejo ao mesmo tempo.

Ofegantes, silenciaram. Ele tinha os braços esticados segurando a borda, o rosto encoberto pelos cabelos despenteados. Mirava o dedão do pé submerso. Ela tinha os olhos surpreendidos pela tatuagem que ele escondia na parte interna de um dos braços, o queixo encoberto pela água. Movia as mãos trazendo a água rumo ao peito.

Naquele dia, não nadaram mais . Logo ele estava debruçado sobre a raia que os separava, falando qualquer coisa sobre pessoas que carregam algo no olhar. Dizia que era uma coisa cristalizada, uma marca permanente, uma lembrança fixa que por alguma razão foi incorporada à retina, como aquele olhar estático que passam a ter para sempre as mães de filhos mortos.

Quis saber de onde vinha aquela marca que via nos olhos dela também. Olhos que ela devia ter cerrado logo em um beijo, mas que, com as costas rentes à borda, manteve bem abertos para navegar com seu enigma para bem longe dali.

” “

Repescagem é a comida congelada do sexo.

Método Trótski

Erro é quando o conjunto de coisas que se imaginava justificar um ato ou uma ação deixa de existir. Quando caem os alicerces, o que sobra é o erro, um erro PP, P, M, G ou GG –este último brilha tanto que ofusca, cheira tão forte que embrulha o estômago, apita tão alto que dá dor de cabeça.
E é preciso encará-lo. O grande problema do erro é que, não importa
o quanto incomode, é impossível desfazê-lo. Ou não.

“Há estátuas de Lênin em todas as poses possíveis e imagináveis, e mais tarde, nos quadros de sua vida, surge Stálin. Em todo o museu, porém, não se vê uma única imagem de Trótski. No que concerce à história russa, Trótski deixou de existir; na verdade, nem sequer chegou a existir. Esse é um tipo de abordagem histórica incompreensível para nós. Trata-se, antes, da história que gostaríamos que tivesse ocorrido, e não da história que de fato ocorreu. Afinal, não há a menor dúvida quanto à enorme influência histórica de Trótski sobre a Revolução Russa. Também não há dúvida quanto à enorme importância histórica de sua remoção e banimento. Todavia, para os jovens russos, ele nunca existiu. Para as crianças que visitam o Museu Lênin e acompanham a história da Revolução Russa, não há nenhum Trótski, nem como herói nem como vilão.”

John Steinbeck, ”Um Diário Russo” 

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