Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Maio, 2008
Nossa música
O ônibus desce a rua num sacolejo, pára no vermelho. O motorista se ajeita no banco, dá uma olhada pro lado, boteco sujo e animado, gente na calçada. Ele grita por cima do ombro:
- Ô Valdí. Ô Valdí.
O cobrador pestaneja no cochilo.
- Quié?
- Tá ouvindo?
- Quê?
- A nossa música.
Coletivo em silêncio absoluto.
- É o Creu, é?
- Ô Valdí, deixa de ser besta. É Bebe Cai Levanta, não tá conhecendo, não?
- Vixi, pior que é, nem tava reparando. Forró Suco de Pimeeeenta!
Podia ser pior.
Podia ser Imagine.
Tato e cegueira
FERNANDO MEIRELLES
ESPECIAL PARA A FOLHA
Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa emocional, saí de Cannes no sábado e fui para Lisboa mostrar o filme “Ensaio sobre a Cegueira” para o autor da história, José Saramago.
Por meses, antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso -e não estava errado. Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado, não tinha projeção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste da projeção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso, achei melhor ir em frente.
Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começamos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que uma música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reação nenhuma. Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar, debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu, emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reação, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.
Deu tudo errado, pensei. Toquei seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse, pausadamente: “Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever “O Ensaio sobre a Cegueira’”. Apenas agradeci e ficamos ali quietos. Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio. Ele passou a mão nos olhos, disfarçando a sua. Pensei no meu pai. Emoção sólida, dessas que se pode cortar em fatias com uma faca. Num impulso, beijei sua testa. (continua)
***
O blog do filme é sensacional também
Âmbar
Naquele dia vestiu-se pensando que aquela seria a roupa que usaria para beijar aquela boca, uma boca de nunca havia beijado, a não ser no cinema que se projeta através da janela quando se está a sós. Escolheu a blusa, escolheu os sapatos, escolheu colar e brincos –peças que, achava, se encaixariam perfeitamente no que ele gostava em uma mulher. Naquele dia, ela seria aquela mulher, aquela mulher de que ele gostava, ah, ele devia gostar. Aquele dia terminaria em beijo. As horas se passavam e encontravam-na sempre pronta, uma banca de maçãs impenetrável pelas estações do ano. O dia findou e a noite encontrou-a igualmente pronta e impassível. Sua espera avançava certeira como o rumo do ponteiro, mas ele não chegou na hora marcada. Nem meia hora depois. Nem mesmo passados cinqüenta minutos. Não tinha importância; aquele dia terminaria em beijo. Uma manada de minutos já havia corrido dali, um cardume de horas já havia sido afugentado do tempo, enxames de momentos perdidos ziguezagueavam enlouquecidos quando a porta se abriu. Ela sorriu como quem rouba no jogo, espécime triunfante à seleção natural. Ele acabara de entrar. Bastava esperar. Tudo seria. E eles se encontraram na multidão, e de repente se viram a sós, e conversaram muito, e sorriram demais, e se olharam nos olhos, e entrelaçaram as mãos, e fizeram silêncio, e pensavam em ir embora e não iam, e sentiam seus corações puxando em correnteza, e se debatiam sem sair do lugar. Vontades nascem do acaso e se cristalizam em destinos, âmbar guardião das origens e revelador da sorte. Aquele dia terminaria em beijo.
Plano
O plano é o aeroplano
Deixar os dias serem o que eles quiserem ser
Peito aberto é vela para o alto
Corpo preso por um fio;
sorriso, olhar, palavra
Alguma coisa dentro aponta o norte
Nascentes do ser, do ir e do querer
umbigo do futuro
Não sei de onde vêm as vontades,
mas as das pipas vêm da brisa.
Meio frango
Não agüento gente arroz-feijão, não suporto. Sabe, gente que fica só no arroz-feijão a vida toda, achando que tá bom, que não precisa de mais nada? Ah, não, que que é isso! Tem que querer sair do lugar. Tem que querer pelo menos meio frango.
Corações (realmente) psicodélicos
- OUVIU??
- O QUÊ?
- A MÚSICA!!
- QUE TEM?
- ESSA MÚSICA!! ME LEMBRA VOCÊ!
Ela olha com cara de idiota. Nunca gostou da droga da música. Deveria ter dito: mas eu odeio essa música, por que raios você acha que essa coisa que eu odeio tem a ver comigo, porra? Mas não. Subitamente, sem saber como nem por que, escuta uma frase de efeito soprada do além: “O inferno está cheio de gente que em momentos de crise manteve a neutralidade”. Era o Kennedy. Ele sempre aparecia em momentos como esse. Ruim mesmo era quando ele a surpreendia em meio ao coito, sentado na beira da cama, meia três quartos aparecendo na canela, dizendo que em vez de pensar no que o país poderia fazer por ela, que ela pensasse no que poderia fazer pelo país. Saco. Mas, pera, o assunto ainda era a música. Então ela abre a boca e pronuncia seu passporte para o inferno.
- AH!! OBRIGADA.
Neutralidade torpe.
- ESSA PARTE!! É ESSA PARTE QUE ME LEMBRA VOCÊ. ESSA PARTE, Ó, AGORA… OUVIU?
- NÃO.
Sim, ia ser ridículo ouvi-lo cantar. Por isso mesmo. O inferno era logo ali.
- AH, ELE DIZ “GOSTO MUI-TÚ DO SEU JEI-TÔ, ROCKEMRROU MEIO NONSEN-SÊ”
- AH. EU SOU NONSENSE?!
- É!! QUER DIZER, NÃO. É, UM POUCO. “BOSSA NOVA QUALQUER NO-TÁ”. É VOCÊ!! QUALQUER NOTA BOSSA NOVA!!
- COMO ASSIM, EU SOU QUALQUER NOTA??
- BOSSA NOVA!! “PRACABAR COM ESSA INOCÊN-CIA”
- SOU INOCENTE? SABE QUE A INOCÊNCIA É A MÃE DA MALDADE.
Kennedy dá um sorrizinho orgulhoso.
- BOM, O RESTO É MELHOR EU NÃO CANTAR. VOCÊ PODE NÃO LEVAR NUMA BOA.
- É, MELHOR MESMO.
- “TODA NU-ÁA”
Ah, não. Ela dá as costas e vai embora. E ele fica ali, resignado, pensando que a vida passa na TV. Mas antes de sucumbir à melancolia, recebe um tapinha afável nas costas. “Feliz de quem está triste”, diz Kennedy com uma piscadela, tentando consolá-lo.
Foi a pior frase já proferida por JFK.
Non stop
“E tudo o que existe agora será obsoleto dentro de pouco tempo. Até o e-mail será obsoleto, porque tudo será feito com o celular. Talvez as novas gerações se acostumem a isso, mas existe uma velocidade do processo que é de tal calibre que a psicologia humana talvez não consiga adaptar-se. “
“A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho. Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal.”
“Eu já disse que não acredito nisso [felicidade], mas, enfim, fico feliz quando encontro um livro que estava procurando havia muito tempo. Quando o compro e o tenho, olho para ele e me sinto feliz. Mas a sensação acaba ali. Enquanto a infelicidade é o que me provoca o fato de não ter este ou aquele livro. A verdadeira felicidade é a inquietude. É sair à caça, não matar o pássaro. “
