Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Junho, 2008
Lingüística
Esqueça palavras, rimas, frases articuladas
todo aquela vastidão literária que o ensinou a nomear o mundo;
Deixe para trás ironias, grandes sacadas, desfechos brilhantes
(não precisa nem sequer pensar no título);
Dispense os capítulos encadeados, as páginas numeradas, as impressões relidas
– nada há de ser corrigido;
Signos astrológicos
Letras mortas
Língua úmida;
Não há sistema que traduza
o que dizem seus olhos
quando olham para mim
Across the universe
Quando falam mal da tecnologia, eu penso nas pessoas das quais me aproximei por conta deste blog. Hoje o Volú foi linkado lá na Suécia, por uma fotógrafa que já postei aqui várias vezes, Emilie Björk (aqui e aqui). Gosto muito do trabalho dela, meio que me identifico, fico achando que são coisas que poderiam sair de mim se eu soubesse falar com fotos. Essas conexões mostram o quanto o mundo é completamente louco. Ou nem tanto assim.
(beijo aos meus leitores internacionais… Suíça, Lyon, Londres, Barcelona, Sydney… ainda falta Dudinka)
Entre o céu e a terra
Theologians
They don’t know nothing
About my soul
About my soul
I’m an ocean
An abyss in motion
Slow motion
Slow motion
Paes e Naves
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“Meu amor é simples, Dora,
como a água e o pão,
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão”
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“Cumpre amar inda mais e sobretudo
a volúpia malsã que só com dano se consegue
e que raro encontra o corpo capaz de a sentir como ela pede –
que, malsã e danosa, propicia uma tensão erótica que a sanidade ignora…”
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José Paulo Paes
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Trechos do texto do Rodrigo Naves sobre o José Paulo Paes publicado na “Piauí” de junho –”recomendo vivamente”, como costuma dizer o próprio Rodrigo, já cativo no meu pequeno olimpo de mestres.
(Mais: )
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“Não há ilação mais difícil do que aquela que aproxima a biografia e a obra de um autor. Numa passagem comovente, falando de Cézanne, Merleau-Ponty diz que o melhor de um artista deve ser buscado na sua obra. É nela que as incapacidades pessoas de alguma forma se redimem, em que os nossos limites fazem vislumbrar algo maior do que se conseguiu ser, e por isso as obras precisam ganhar a luz do dia. Neuróticos renitentes deixaram trabalhos admiráveis. Cézanne, por exemplo. São os pecadores que entendem de salvação. Não os carolas.
Com freqüência –e quem não viveu essa ilusão deixou de entender a si próprio– tendemos a aproximar, até por generosidade, a grandeza de uma obra ao caráter, igualmente nobre, de seu autor. Do mesmo modo, quem não passou por essa desilusão, por essa discrepância tão corrente, deixou de experimentar uma das dissonâncias mais reveladoras da alma humana.”
Rodrigo Naves
Mar doce
O homem mais doce do mundo senta-se aflito. Com os cotovelos sobre os joelhos, entrecruza os dedos e balança a cabeça, incrédulo. Um sentimento o assombra. Segura o rosto entre as mãos, para que os pensamentos fiquem no lugar por um instante, um único instante. Mas eles não páram. Nada pára. As ondas se arrebentam dentro de si, ímpetos de espuma se fazem e desfazem, misturados aos desejos d’água, túrgidos, sem beira-mar para onde correr; oceano contido. A mão espalmada na testa vai da fronte à nuca, da nuca à testa, da testa às têmporas, redemoinho. Mergulhada entre os cabelos, a mão navega sem norte, tateando uma explicação à deriva, mas não há superfície. Não há saída. O homem mais doce do mundo é um náufrago debatendo-se em alto-mar, exaurido em sua convulsão de água, sal e mel. O homem mais doce do mundo sofre porque foi inundado por um sentimento ainda mais doce que ele. E mares doces não correm na praia.
Surpresa boa
Meu amigo e vizinho de blogosfera Emilio Fraia vira gente grande e estampa a capa do Caderno 2 de hoje, muito bom! O lançamento de “O Verão do Chibo”, dele e da Vanessa Barbara, é nesta quinta.
(ps.: ô Emilio, esse seu meio frango aí é à parmegiana hein)
Síndrome do Táxi
Entre, sente-se, sente-se, por favor. Bom, estou aqui com os resultados dos exames, vou explicar com calma para que você entenda e depois falamos sobre o que podemos fazer a respeito. Qualquer dúvida, você me pergunte, estou aqui para isso. Então vamos lá.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o seu exame neuropatológico. Senhor, seus neurônios estão lesionados, e de uma forma bastante peculiar, eu diria. Eles estão com LER, senhor, lesão por esforço repetitivo, que acontece quando os neurônios realizam exaustivamente um mesmo tipo de sinapse. Em outras palavras, o senhor está formulando ininterruptamente um mesmo pensamento de forma compulsiva. Esse pensamento já foi tantas vezes refeito que começou a comprometer o funcionamento neurológico pleno, ou seja, seus neurônios estão viciados nessas conexões, dificultando cada vez mais a criação de novas, que possibilitariam outros pensamentos. Esse é o primeiro ponto preocupante.
Outro exame que me chegou aqui, de sangue, bem, senhor, esse é ainda mais surpreendente. Foi diagnosticada no seu sangue uma alta taxa de uma substância desconhecida. Mandei fazer uma biópsia e, bem, nem sei como dizer isso, senhor, mas a substância foi diagnosticada como pequenas partículas de notas musicais. Mais especificamente, notas de algum clássico de jazz. O senhor tem ouvido alguma canção em especial com demasiada freqüência nos últimos dias? Ah, sim, imaginei que pudesse ser isso mesmo, Miles seria o meu palpite. O que acontece, senhor, é que as notas de Miles, se ouvidas ininteruptamente, com atenção demasiada, ou se forem usadas como trilha sonora de sonhos e devaneios, se acumulam na membrana timpânica, que as absorve. Isso faz com que elas acabem entrando na corrente sangüínea, tornando o sangue mais fluido e elevando em até três graus a temperatura sangüínea.
Mas o maior problema é que em alguns casos as notas comprometem as funções dos glóbulos brancos, ou seja, o paciente fica propenso a desenvolver uma certa dificuldade de cicatrização, os ferimentos ficam menos propensos a serem estancados, podendo inclusive ocorrer eventuais sangramentos.
Quanto ao seu eletrocardiograma, senhor, bem, os batimentos estão bem acima do nível considerado saudável, e me preocupam especialmente o registro de pequenas taquicardias esparsas, estimuladas por alguma conexão cerebral que eu ainda não consegui identificar, mas que acredito estar ligada ao esforço repetitivo neuronal que vem causando as lesões.
Outra coisa que me chamou a atenção foi que identificamos a causa daquele suor nas mãos, de que o senhor se queixou. Bom, naquela coleta, recolhemos em três minutos cerca de 10 ml de suor de sua mão direita, uma quantidade bem acima dos níveis sudoríferos aceitáveis. Além disso, senhor, a temperatura do suor coletado era de 4,5°C, o que nos leva a concluir que está havendo um degelo interno, e que o líquido resultante desse degelo está sendo eliminado pelo sistema epidérmico das mãos. Acredito que o degelo esteja ocorrendo provavelmente em alguma região do endocárdio, que é a membrana que reveste o interior do coração, e pode ter sido provocado pelo aumento de sua temperatura sangüínea.
Há outras pequenas disfunções identificadas, respiratórias, olfativas e oftamológicas, além dos distúrbios de sono e de apetite que o senhor já me havia relatado. Não vou me alongar sobre elas, porque creio que, se fizermos o tratamento adequado, essas funções serão normalizadas sem maiores prejuízos ao organismo. Então, deixe-me explicar o diagnóstico.
Senhor, o senhor foi acometido por um distúrbio popularmente conhecido como Síndrome do Táxi. Isso porque os pacientes que sofrem desse distúrbio apresentam impulsos irrefreáveis de chamar um táxi, em qualquer lugar em que estejam, a qualquer hora do dia ou da noite, e partir ao encontro do seu objeto de desejo. Uma vez em contato com esse objeto, uma espécie de crise nervosa é desencadeada, em que súplicas e promessas começam a ser feitas compulsivamente, acompanhadas por dizeres pouco compreensíveis, que acreditamos serem variações de expressões como “eu te amo”, case-se comigo”, “você é a mulher da minha vida” e outros dizeres do gênero.
Nos casos mais extremos, os pacientes acometidos pela Síndrome do Táxi insistem em ir ao aeroporto mais próximo, onde chegam semi-inconscientes e normalmente em um horário próximo da hora de embarque do objeto de desejo, implorando de joelhos, muitas vezes com as glândulas lacrimais em plena atividade, para que este não parta.
O problema, senhor, é que infelizmente a medicina ainda não desenvolveu uma cura para a Síndrome do Táxi. Mas, ainda assim, há esperanças; muitos pacientes têm obtido bons resultados com o tratamento que prescrevemos. Vou fazer a receita para o senhor. Veja, aqui está, é simples até. Por um período de dois meses, é preciso que o senhor faça o mais absoltuto repouso, no mais absoluto silêncio –qualquer tom jazzístico é totalmente contra-indicado– ingerindo este medicamento aqui a cada meia hora. É tarja preta, mas é fácil de achá-lo, qualquer farmácia tem, Tempo 250 mg. Consuma-o gradualmente que os sintomas tendem a se tornar menos intensos.
Marcamos uma nova consulta então para daqui a dois meses, e aí faremos uma nova bateria de exames, para avaliar o tratamento. Ah, outra coisa importante: mantenha-se afastado dos táxis nesse período e, em hipótese alguma, alguma, entre em um carro destes durante o tratamento. Isso pode desencadear uma piora efetiva do quadro e as conseqüências, senhor, podem ser fatais.
Abc
Parecem subcutâneas, mas as palavras estão na epiderme das coisas, são apenas o subtexto, porque o texto de verdade não se diz, apenas se pressente, no som e nas cores, e é por isso que existem analfabetos de alfabetos e os analfabetos de imagens, sons e tatos. E é por isso que existe música, a música que sublima palavras e iguala os seres humanos enquanto a biologia berra as diferenças gritantes entre homens e mulheres e seus corpos que não passam de um sintoma de toda diferença que corre por dentro deles, esses corpos que de tão avessos se encaixam em perfeição, como as palavras não ditas que se encaixam no ar e nas fendas dos corações, como os desejos se encaixam nas fendas das saias e os devaneios cabem nos decotes, e embriões de beijos cabem em olhares, como a ânsia encaixa na espera, e as imagens empregnam os sonhos e os sons que escapam das traduções para caber certinho no nosso silêncio e no barulho do fundo do mar, que é quase ausência de som. Mas mergulhar é ultrapassar a superfície onde bóiam todas as palavras que existem, a enorme sopa de letrinhas que a gente tinha de tomar quando criança e, depois de uma noite inteira de colheradas, descobrir algum desenho no fundo do prato, ainda coberto por pedaços de cenoura e um pouco de caldo e algumas palavras, sempre elas, se revelando junto com o rosto da Branca de Neve, as palavras, ali, na espreita para serem ditas, na sua natural arrogância impositiva de nomear o inexplicável. Ah, mas desse verbo você vai gostar, tenir, porque tenir não é avoir, tenir é o que se tem nas mãos, o que se tem naquele instante e somente naquele instante, e o avoir, não, o avoir é o que se possui de fato, dans le tourbillon de la valse, il tient dans ses bras la superbe danseuse, tiens-moi dans tes bras, tenir é o que logo vai escapar, desaparecer na multidão, como as superbes danseuses, que ninguém tem algo superbe muito tempo dans ses bras, e é daí que vem aflição da perda no mundo fugaz dos modernos sem rosto, nome, dizeres ou preces, escapando, escorrendo, indo, sumindo, ficando para trás, irrecuperáveis, náufragos a muitas e muitas milhas de onde bóias as letrinhas.
