Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Julho, 2008

Januário

Se eu fosse mar,
me fazia maré cheia
Deitava-me sobre seu corpo
e lambia a tua areia

Reforma e contra-reforma

Minha casa minguante
revés de um big bang
Antes derramamento,
agora é recipiente;
Movimentos contidos
de expansão contraída;
Meu lar centrípeto
ensimesmado em caracol;

Da dança e do esparramo,
apenas os móveis imóveis
e o suspense estático sobre seus destinos,
angustiantes sentenças de remoção

Pois que há menos chão e mais paredes
(os mesmos quadros, menos tapetes)
Espaços espartanos, cubificados
Memórias esquartejadas em cimentados

Minha sala dormiu Duomo e acordou Berlim
Um todo retalhado por avassaladora vertical
Parindo oriente e ocidente que nem se sabiam existir
Murando o princípio e apartando o meio do fim

Era o Pacto de Varsóvia e ninguém me convidou
Tampouco a RDA me quis como aliada
Agora torço apenas para ter ficado do lado certo
onde a cortina de ferro não cubra minha janela

Dados

Não acredito na matemática. Acima de tudo, não acredito em probabilidades. Não entendo que as coisas tenham 47% de chance de acontecer. Afinal, são apenas duas as possibilidades: sim e não. Tudo tem metade de chance, ou a outra metade. Sobre os tabuleiros, nunca joguei os dados torcendo para que desse o número de que eu precisava, até porque eu nunca soube de qual número eu preciso. Não sei formular meus desejos porque tenho medo de pedir coisas erradas. Então sempre peço coisas genéricas, com ampla margem de manobra. Fico achando que algo dentro de mim vai saber pedir certo, ainda que eu não consiga formular racionalmente de que é que eu preciso. Então, quando é minha vez de jogar, seguro os dados, chacoalho-os nas mãos e arremesso as peças torcendo, mentalizando,  ”tomara que dê certo”, sem nunca tentar entender se o número que sai é bom ou ruim. Fico achando que, mesmo quando a casa em que eu caio me diz para ficar uma rodada sem jogar, que talvez aquilo seja bom, que talvez seja aquele o caminho, ainda que torto, pelo qual eu vencerei. O lance de dados. O acaso. Eu e minha estranha fé cética.

28

Cheiro de ferro
Força que escorre
Promessa de vida que se esvai

Corpo tingido, curvas retorcidas
O esforço de uma natureza ancestral
É um futuro morto de desnutrição
Conceito sem concepção
Milagre cético do destino cíclico

‘Mulher é abrigo, não se revolte,
veio à luz para dizer que sim’
Então aceito e uterinamente acolho
o mundo que escapa de mim

Represa

Meus livros se empilham na cabeceira da cama, represa dos meus sonhos. Mas, em dias de muita chuva, quando sobe o nível da água, capas, páginas, frases e parágrafos se encharcam, deixando vazar os desejos que emanam do meu sono. Meus sonhos então molham o dia, e eu vivo pedaços de céu.

Seu Meira

Seu Meira era taxista. Colava o queixo na direção para enxergar à frente mas tinha a certeza de que era o banco que lhe dava dor nas costas. Comprou então uma almofadinha de manteiga, como ele dizia, e como eu achava graça de ele dizer. Mais graça ainda era o jeito de ele falar sobre algo que acontecia na rua. Em vez de dizer “Você viu isso!?”, ele se virava pra mim, com aqueles olhos envidraçados, e perguntava: “Você viveu esse momento!?”

Poeminha lusco-fusco

O sol e a lua se apaixonaram
mas não podiam se aproximar

Seu encontro seria o fim das noites,
que teriam seus breus tingidos de dourado
E a extinção dos dias claros,
que, de azuis, virariam platinados

Mas eis que em meio à batalha quase perdida
O amor (sempre ele) soprou-lhes uma estratégia

Sugeriu à lua que se atrassasse um pouco
e ao sol, que chegasse minutos antes da hora
E da brevidade desse encontro
foi que nasceu a aurora

Ex-rascunhos

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Então segue:
Primeira coletânea Volumetria de retalhos de rascunhos nunca antes publicados:

Setembro 2006
O coração aberto é uma piscina. Às vezes a água parada já é linda por si mesma, bem azulzinha, tranquilinha. Às vezes também fica torcendo para que alguém mergulhe. Há quem se sente na bordinha e apenas balance os pés. E os que acham a água muito fria e preferem só deitar na bóia e flutuar na superfície. Tem também os que só querem um mergulho rápido, de entrar e sair. Há os cheios de metas, que só saem da água depois de fazer trocentas chegadas (gostam de nadar em linha reta e, por isso, só entram nas piscinas com raias). Mas os loucos pulam de cabeça.

Março 2007
Fé não é fazer força para acreditar, mas confiar no sentimento de que a perspectiva sonhada é mais forte do que qualquer obstáculo. Fé é a prova viva de que o caminho do destino é real.

Setembro 2007
Achei que você fosse bolar algo para salvá-lo. Porque, pelo que sei, ele ainda vai morrer esta noite. A única coisa que o mantém vivo é o fato de que o escritor não sabe o que fazer com ele.

Março 2008
Constatação: fones de ouvido são um instrumento de convívio social imprescindível.

Maio 2008
1.
Impossível convencer alguém a gostar da gente.
(a não ser que você seja o Eric Clapton).
2.
Existem vários tipos de amor.
Alguns dão medo.
3.
Existem vários tipos de amor.
Todos dão medo.
4.
O blues é a experiência de sofrimento transmitida para os que sofrem.

Selvagem é o vento

Diálogos

Fernanda dizia que as coisas se revelam por si mesmas; é preciso saber esperar

André dizia que casar é tão bom que ele mesmo já se casara quatro vezes

Patrícia dizia que a única forma de entrega é não se dar

Luís Fernando dizia que quando a abraçava, era como se entrasse em casa

Júlia dizia que somos tão narcisistas que só conseguimos nos apaixonar por nossas almas-gêmeas

Guilherme dizia que apaixonar-se é sentir nossos copos internos se enchendo e se esvaziando freneticamente

Contardo dizia que a vida deve ter a dignidade de uma ficção

William dizia que um amor é bom pelo tanto que ele é difícil

Alessandro dizia que gostava daquela frase do Salinger, de que no momento em que contamos algo a alguém, é quando começamos a sentir saudades

Elisa dizia que seu projeto de vida era nunca saber o que fazer com ela

Cartola não disse nada e tirou-a para dançar

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