Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Agosto, 2008

Deseo

Amor desumano
metade animal
metade divina

Cabíveis

- Então sai que eu faço.
Ela se levanta, dá a volta na cadeira e fica ali, em pé, cintura paralela ao encosto. Olha para baixo. A outra sentada à frente, olhando à frente, pensando à frente. Estica as mãos. Desliza as palmas pelos fios espalhados sobre os ombros. Junta-os. Um pedaço escapa. Segura o todo com a direita e recolhe a facção rebelde com a esquerda. Pronto, todos reunidos.
- Você tem pouco cabelo, né?
Puxa-os todos para cima. Chacoalha. Ri. Solta. Caem pelas costas como um jogo de pega-varetas. Acha graça. Reúne-os novamente, entrelançando fios e dedos. A delicadeza do caminho ascendente à nuca dá um calafrio. Solta tudo. Embaraço. Agora os fios formam um tribal.
- Você precisa fazer uma hidratação.
Lembra-se de quando a tia leu o destino na borra do café. Tenta enxergar um desenho místico nas linhas entrelaçadas. Tudo aquilo é morto, resíduos de passado, assim como as estrelas que reluzem no céu. Lembra-se de que ”desenho” e “desígnio” têm a mesma origem. Só enxergamos a forma do que já era nossa intenção.
- Essa cor é natural?
Separa o todo em três partes. Joga a da direita sobre o ombro direito. Pega a da esquerda e cruza-a sobre a que repousa encobrindo a nuca. Busca a da direita e toca levemente o rosto à frente.
- Desculpa.
Entrelaça as partes como as linhas que se cruzam na palma da mão, tecendo predestinos, uma sobre a outra, sobre si, sobrepostas, sobretudo, sobremaneira, sobressalto, sobrevida.
- Tem um elástico?
Desarme, demora, desnível, desmonte, desnorteio, se desfaz. Passa os dedos em sentido único, que algum sentido é preciso haver. Pensa que o passado prenuncia o futuro e ao presente resta apenas o vislumbre dos resquícios e das anunciações.

6h01

Dividida

Seu primeiro contato com a intimidade masculina foi em um campo de futebol. Era imbatível na zaga, mas vezenquando os meninos deixavam que partisse para a artilharia, principalmente quando um dos renomados titulares se encostava na grade com o peito murcho, camisa empapada no ombro, bochechas rosadas e suor gotejando nas pré-costeletas. Aí era bom. Aí era a hora de partir para o ataque. Corria que até ardiam os pulmões. Ficava cara a cara com o goleiro e chutava sem dó, acertasse onde acertasse, achando graça naquele contorcionismo deles para poupar as partes baixas e péim, sem dó, a grade tremendo, desenlace, e a brisa secando o rosto, coração batendo junto com a pisada, até voltar à posição inicial. Mas naquele dia o goleiro mudou e ela não viu. Os meninos riram, o espanto dela ao cruzar a grande área e se deparar com o bêbado ali, de braços abertos, o bêbado que ficava gritando da lateral e que os meninos achavam graça, o bêbado que lá da ponta, arre, já fedia até o meio do campo. Cara a cara com o bêbado, não era mais nenhum dos meninos, mas não podia amarelar, que menina tem que ser valente, ainda mais no meio do bando. Fez que não quis nem saber, engoliu a seco e chutou. Pra fooora. O bêbado vibrava, pulava e fedia, e fedia, grunhindo e mostrando toda a gengiva. Emburrou. Ai, raiva dos meninos, daquela banguela horrenda, do chute torto. Vingança. Ia partir para a desforra. No lance seguinte, saiu que nem jato, quis fazer tabela, pediu, pediu bola, mas quando recebeu se embananou toda, as pernas não obedeciam, parecia ter três, quatro pés, e aquele fedor cada vez mais forte, tonteando o adversário, e já dava para ver os pêlos da cara, porque era um homem e não um menino, cara a cara, perto demais, a bola que não largava dela, ai, que não chuta, chuta!, chuta! e não ia e o bêbado se atirou na sua agilidade embriagada e se sentou de cócoras sobre a bola e um rombo enorme na bermuda pôs tudo à vista, tudo, tudo mesmo, meu deus, que que era aquilo tudo que ela nunca tinha visto nada assim e os meninos às gargalhadas e o bêbado já chocando a bola que ela devia ter arremessado para ouvir o barulho da grade, ela só queria ter ouvido péim, mas agora era tanto pêlo ali e aquelas coisas todas tão esquisitas balançando pra todo lado e a banguela escancarada, o horror, o horror, queria sair correndo mas não conseguia parar de olhar, o jogo tem de continuar, ah não, assim é demais, que nojo, que nojo, metade do time já rolava no chão de tanto rir, a outra metade se escorava pelos cantos, ah, não tinha mais jogo, só a bola, as bolas e o bêbado rolando com todas elas entre as pernas.

brevidade

Hoje seria um bom dia para morrer. Queria morrer assim, de repente, feliz. Que nem cigarra. Estourar de tanto cantar. Os pulmões arrebentando porque não comportam tanta vida. Ou que nem balão, que cumpre seu destino tanto e tão alto que incendeia. Vou queimar nos seus braços. Arder que nem vela de aniversário, daquelas cheias de labaredas, que depois que o fogo de esvai envergam e morrem para marcar o tempo que passou. Vou ser estrela cadente, esperar uma existência inteira apenas para o momento de rasgar o céu e sumir de repente, marcando para sempre a memória do horizonte. Quando sua, serei areia mole que vira vidro e que nunca mais poderá se transformar novamente, a não ser em caco. Com você, me tornarei pétala, guardiã da polinização. A única razão de ser de toda a minha forma e cor serão esperar pelo instante fugaz em que a vida se completa.

Insondável

Na percepção primordial, as distinções do tato e da visão são desconhecidas. É a ciência do corpo humano que nos ensina, posteriormente, a distinguir nossos sentidos. A coisa vivida não é reconhecida ou construída a partir dos dados dos sentidos, mas se oferece desde o início como o centro de onde estes se irradiam. Nós vemos a profundidade, o aveludado, a maciez, a dureza dos objetos –Cézanne dizia o mesmo: seu cheiro. Se o pintor quer exprimir o mundo, é preciso que o arranjo das cores traga em si esse todo indivisível; caso contrário,  sua pintura será  uma alusão às coisas e não as mostrará na unidade imperiosa, na presença, na plenitude insuperável que é, para todos nós, a definição do real. Eis por que cada pincelada deve satisfazer a uma infinidade de condições, eis por que Cézanne meditava às vezes durante uma hora antes de executá-la: ela deve, como diz Bernard, “conter o ar, a luz, o objeto, o plano, o caráter, o desenho, o estilo”. A expressão daquilo que existe é uma tarefa infinita.

Merleau-Ponty em “A Dúvida de Cézanne”

Reflexo

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Ai, você deve estar dormindo agora. Com a janela aberta e aquele estroboscópio na parede. Não entendo como você consegue dormir com aquilo dependurado. Tive um ataque de riso pensando nisso. Pronto. Já estou rindo de  novo. Tão bom rir… Ontem eu quase nem ri. Andei na corda bamba, um cristal se trincou. Vi uma coisa que nunca tinha visto. Tudo mudou e agora não posso mais voltar. E também não sei para onde vou. Sonhei com você, mas já esqueci. Vou tentar lembrar. Aqui é bom de remanejar os sonhos. Sempre à noite eu dou uma acordadinha, posso tentar lembrar nessa hora, provocar esse sonho. Eu seleciono, é bem bacana. Espero que você não esteja correndo muitos riscos nas suas noites, com aquele estroboscópio. Às vezes acho que sou um pouco insuportável. Ou são eles.

#

Não é estroboscópio, é globo. E não é na parede, é no teto. Um dia vai cair, eu sei. Mas nada fica como é.  Você não devia ter medo. Porque quando está escuro e a luz dos carros passa pelas frestras, fica tudo refletido. Um planetário sob as cobertas. Mas as coisas bonitas sempre dão medo. Aqui tudo tem mudado. Estou aprendendo como as coisas são. Os cristais, por exemplo. Não é porque trincam que vão quebrar. Eu continuarei aqui. Até que eu mesma trinque. Ou você. Só por favor não quebre, que eu não saberia o que fazer. Posso entrar no seu sonho hoje à noite? Eu também tenho acordado várias vezes, mas sonhado pouco. Ia gostar se você sonhasse pra mim. Posso entrar no seu sono numa dessas acordadinhas. Me procura? Talvez você tenha razão. Deve ser por causa daquele negócio, deve ser por isso que eu não tenho dormido bem. Ninguém relaxa com uma coisa daquela pendurada sobre a cabeça.

In a sentimental mood

Medo de nunca mais voltar a escrever nada de que eu goste. Minha criatividade carcomida. Minhas invenções enferrujadas. Meus temas escaparam pelo buraco da meia. Puídos na gola. Esgotamento. Sou máquina. Pedi para ela perguntar ao elefante e à girafa para que serve tudo isso, que eles devem saber. Sei que ela sorriu. Foi muito lá longe, mas ainda assim é um sorriso com dentes, lábios e tudo isso. Eu, daqui, não digo nada, pois se tivesse o que dizer, escreveria. Mas nem ler consigo. Sumi de mim mesma e sinto minha falta. Sinto a sua falta também. E a nossa. Nunca mais vou me recuperar de certas noites. E nunca mais os cortes de algumas palavras vão cicatrizar. Ma, você ainda vem me ver? Ainda é minha mrs Dalloway? Estou na primeira cena de ”Vanilla Sky”, gritando na cidade deserta. Por que não nos encontramos todos ali na esquina? Riríamos e diríamos que nossa existência se resume às pessoas que amamos e riríamos mais dizendo que nos amamos e que, de resto, nada mais faz sentido. Aí silenciosamente eu diria para ecoar dentro de mim, ‘querido, a lembrança de seus olhos é meu bálsamo, preciso amar você qualquer hora dessas, me avise, pt saudações’. Porque o sol, quando se erguia, era um milagre. Agora, é a aurora.

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