Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Setembro, 2008
CAMINHOS
Tudo bem, a Fê é minha amiga… mas é que a peça é realmente sensacional. É fruto de meses de trabalho da turma do Núcleo Experimental do Teatro Popular do Sesi que, depois de ficar em cartaz ali na Fiesp entra novamente em temporada, dessa vez em Pinheiros. Intimista, reflexiva, bem-humorada, delicada e filosófica. Não poderia ser melhor. Não deixem de assistir. Faz bem para o coração.
Revelação
Seu retrato mudo
sobre o criado-mudo
me mirando sair da cama
como quem assiste ao sol nascente
Seu olhar estarrecido
com minha falta de compostura
ao abandonar o leito
nua,
despida de tudo
até mesmo dos sonhos,
que ainda descansam entre os lençóis
Meu corpo emergindo das cobertas
(o raiar do dia que se esparrama na paisagem)
se refletia em seus olhos de papel revelado
mas a revelação era eu
o milagre da imagem que se faz de luz
Seu olhar iluminado
revelava a mim
despida de corpo, coberta de alma
e me revelava a você,
meu milagre feito de luz
Imagem constituída,
me pus em pé
me aproximei
rostos em êxtase estático
Reparei que me mirava os seios
e sorri acanhada
depois dei as costas e entrei no banho,
que o tempo passa à revelia dos momentos fixados
mas seu retrato continua lá
milagre de luz revelado
Kamikaze submarino
Se você me tirasse para dançar agora, eu encharcaria seu ombro de lágrimas. Sua camisa, úmida, colaria na sua pele, salgando seus poros; mas você não se importaria. Continuaria dançando, olhos fechados, mãos espalmadas sobre minhas costas, sussurrando, hum-hum-hum-hu-hummm, uma música antiga que foi parar na sua cabeça sem você saber como, uma dessas músicas que se acomodam de mansinho sem que a gente perceba, sem que a gente consiga tirá-la da cabeça, essas músicas que nos acompanham como os furos das meias (mesmo quando não sussurramos, mesmo quando ninguém vê nem ouve, sabemos de sua presença, sabemos que é preciso guardar segredo, não se expor demais), essas músicas que fazem de nossos olhos as nascentes da alma, que arrancam o inescapável de nós mesmos, como a onda que se arrebenta nas pedras, a onda que nada pode fazer para evitá-lo, essas músicas de espuma, hum-humm-huu, que fazem o mundo inflar até quase não mais caber, que nos fazem querer morrer por estarmos longe ou perto demais, que nos fazem querer morrer a cada lembrança de par e de ímpar, essas músicas que tocam tão alto que arrebentam os tímpanos, que ninam os sonhos e atemorizam os medos, que nos levam à ruína, intensidade inconseqüente de não se conter, ondas desfeitas em beira-mar, hum-hum-humm, e ainda assim sorrimos durante a queda, como se o chão em vez de ameaça fosse libertação, como se a vida não dependesse da integridade, mas apenas de um estouro úmido, nascente jorrando som, águas que não comandam o próprio destino, como se ser fosse entregar-se ao não saber, pressentir que se tem de correr, se arrebentar nas pedras como algumas músicas vêm se arrebentar em nós, essas músicas que inundam, hum-hummm-hum, que se encaixam em nosso silêncio como se tivéssemos esperado por elas por toda a vida, como a areia que existe apenas para ser umidecida, como as notas que inundam o branco da partitura, que nos tocam, tocadas, hum-hummm-hu-hum, molhando tintas, tingindo o ar, molhando o som e montando nossos pensamentos e saindo a galope até sumirem no horizonte, bem lá depois depois da linha, onde se afunda o precipício, o destino da arrebentação, aonde vão todas as músicas e todas as lágrimas, toda a água que teima em estourar arrebentando o sossego das praias pacatas, a sinfonia das vozes que não tinham sequer o que murmurar e agora gritam até arrepiar a espinha, o som que jorra do solo, a nascente de uma alma que depende de se arrebentar para existir.
Desassossego
Clarrisa tira os brincos sempre que entra no vagão do metrô. Tem medo de que alguém se enganche neles e rasgue a sua orelha.
Luiz não abre álbuns de família. Tem medo de ser abatido pela melancolia que amarela as fotos, reféns do tempo que passa.
Cássia não dorme em andares altos. Tem medo de que seus sonhos se atirem pela janela.
Renato tem pavor de ficar a sós com mulheres. Tem medo dos mergulhos dos olhos nos olhos alheios.
Roberta não usa absorventes internos. Tem medo de, no dia em que usar, ser estuprada e não conseguir tirar o tampão a tempo.
Isabella não dirige. Tem medo de ter opções de caminhos demais.
Jair não lê ficção. Tem medo de nunca mais distingüir a fantasia da realidade.
Andréia nunca andou de bicicleta. Tem medo do frágil equilíbrio que nos move sempre à frente.
Marlene detesta fogos. Tem medo de que o barulho externo estoure o que tanto lhe custou conter em si.
Bruno não se aproxima de cachorros. Tem medo de se contaminar pelo prazer canino, de se comprazer apenas pelo aproximar.
Raquel jamais chorou. Tem medo de perder o sal das lágrimas e ficar doce demais.
Janete não guarda moedas nos bolsos. Tem medo de ser dedurada pelo tilintar.
Tadeu jamais dormiu no escuro. Tem medo do que possa ver.
Garimpo
- Chapéu dourado.
- Oi?
- Chapéu dourado.
- Desculpa, não estou entendendo. O que que foi?
- Onde é que é?
- O quê?
- Chapéu dourado.
- Você quer ir onde?
- Chapéu dourado. Onde é que é?
- Não sei do que você está falando.
- Chapéu dourado, moça. Da pirâmide. Num é na Rebouça?
- Pirâmide? Chapéu…?
- É, que tem os vidro assim, ó.
- Vidro dourado?
- Não, esse é o nome dele.
- Do chapéu?
- Moça, o chapéu dourado das compra. Na Rebouça. Num é na Rebouça?
- Ahnnnn…. ai meu deus, shopping Eldorado!!!
- É, ué. Num tava arreconhecendo, não?
Petit déjeuner
Em Paris, sempre acordava antes das 7h. Normalmente o dia estava nublado. Às vezes, chovia fininho. Da mala, de saias coloridas e alcinhas, só saíam o jeans, deformado pelo meu corpo, o casaco gasto nos cotovelos e os tênis enlameados dos dias anteriores. Sentada na privada eu conseguia pôr os pés na cama. Fazia isso todas as manhãs, para comprovar a pequenice das coisas, a relatividade dos tamanhos. Me lembrava “Alice no País das Maravilhas”. Depois do banho, descia para o café. Dizia bonjour para o monsiuer da recepção, senhor grisalho e muito digno, que sempre me respondia em inflexão, bonjour madmoiselle, me fazendo me sentir tão digna quanto ele. Mas isso era só pela manhã. À noite quem ficava era o garoto, rapaz narigudo de gestos assertivos, mas delicados, e um sorriso cúmplice. Quase todas as noites eu descia com uma garrafa nas mãos e pedia para que ele abrisse (não era permitido levar o abridor para o quarto). Às vezes ele dizia que eu tinha escolhido bem. Talvez estivesse sendo irônico. Talvez tentando ser simpático, buscando se aproximar. Ou entediado, falando por falar. Ficava no ar. Eu não me importava.
Houve a noite em que desci e, em vez de ir até ele com uma garrafa nas mãos, disse bon soir e segui até a porta. Ele ficou parado, me olhando sem responder. Com a mão na maçaneta, me virei para olhar o silêncio. Seu sorriso tinha fugido do rosto. Me virei para a rua, o vento já bagunçando os cabelos, vous êtes très belle madmoiselle, blam, bochechas corando, braços apertando o peito, pulso acelerado, formigamento e arrepio em varredura, vento bagunçando a timidez, passos rápidos, palavras para trás. Acho que flertaram comigo, falei pra Ju. Ela gargalhou. Mais da frase que do fato. A rua dela tinha feira de manhã. Eu adorava essa parte do dia, caminhar ao encontro dela. Quando virava no largo, estava tudo tomado de barracas. As primeiras eram de flores. Exuberantes, recatadas, coletivas, solitárias, compostas, desarranjadas, depravadas sobre o balcão, beatas entre embrulhos. A rua úmida do que escorria dos baldes. O cheiro. As cores. Depois vinham as frutas, as verduras, peixes, ostras, mariscos, queijos, pães, castanhas, sacolas, preços, balanças, bonjour, leite na garrafa de vidro, cheiro de café, doces, passos, esbarrões, ovos, gelo, folhas, água bueiro abaixo, moscas, mais cheiros, cores, texturas, som, provocações, exaltações, privações, subtextos explícitos, declarações ocultas, o mundo todo de uma vez, encharcando os sentidos das coisas e as coisas de sentidos. Como abrir a porta de onde tudo sai ao mesmo tempo. Como fechá-la. O estopim dos fogos de artifício pertence ao mundo. Em nós, apenas o céu, espaço das explosões coloridas e dos ardores súbitos, mirante da entrega.
