Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Outubro, 2008
transe untes II
Rostos por mim. Você vai morrer,
Você vai morrer, você vai morrer,
você vai morrer, você vai morrer,
você vai morrer, você vai morrer,
você vai morrer, você vai morrer,
você vai morrer, você vai morrer.
Rosto no espelho. Você também.
transe untes
Queria ter uma mão insível
que entrasse na cabeça
das pessoas que passam por mim
e extraísse o que lá dentro se passa.
De onde estão vindo. Para onde estão indo.
De que acham graça. Por que já choraram.
Onde gostariam de estar. Com quem.
Se ainda se lembram. Se já se esqueceram.
Que caras fazem. Que cheiro têm.
Que medos lhes tiram o sono.
Que sonhos lhes põem para dormir.
As frustrações mais doídas.
As realizações mais plenas.
O que esperam. O que desesperam.
Que beijo inesquecível. Que lágrima cortante.
De que se envergonham. De que têm certeza.
E principalmente: se sabem que vão morrer.
Top of mind – vive la France!
1. brie
2. bourdeaux
3. amelie poulain
4. acordeon
5. daft punk
6. Flaubert
7. patê, abajour, soutien
9. edith piaf
10. tour eiffel
11. truffaut
12. april in paris
13. escargot
14. claude troigos (marravie!!)
15. louis garrel
16. marina
17. Les Triplettes de Belleville
18. Matisse
19. Pompidou
20. Le petit prince
Bate dói dói
Coração apaixonado
Será? Será? Será?
Será? Será? Será?
Será? Será? Será?
Será? Será? Será?
Coração angustiado
E se? E se? E se?
E se? E se? E se?
E se? E se? E se?
E se? E se? E se?
Coração resignado
Já é. Já é. Já é.
Já é. Já é. Já é.
Já é. Já é. Já é.
Já é. Já é. Já é.
Coração monotemático
Você. Você. Você.
Você. Você. Você.
Você. Você. Você.
Você. Você. Você.
Dora
Ninguém se dá conta, mas as pessoas fazem amor o tempo todo. No caixa do supermercado. Na banca de frutas. Na fila do banco. No ponto de ônibus. Nos balcões dos cafés. O tempo todo. Basta um olhar. Um esbarrão. Um encostar de mãos. Um roçar de pêlos do braço. Os corpos se derretem. As pessoas se possuem nos momentos mais inesperados.
A primeira vez que fiz amor com Dora, estávamos no meio da rua, num canto de calçada, numa esquina qualquer. Foi tudo muito rápido, um suspiro, uma mancha de limites tão tênues como o nome das cores. A pele do meu braço roçando de leve os pêlos do braço dela. E foi só. E foi tudo. Clímax e anticlímax, viagem à véspera.
Por dias estive retido na teia daquele instante. Em vez de me debater, ofegava silenciosamente, náufrago largado na areia, me questionando se sair do mar é o mesmo que sobreviver.
Dora tornou-se o metrônomo dos meus pensamentos. Meu contratempo. Não havia idéia que eu concebesse sem o tique-taque da sua presença. Mesmo quando eu tentava abafar, a coisa me escapava como um soluço malcriado. E sendo esse meu maior susto, não havia meio de fazê-lo parar.
Vários dias se passaram sob meus pés, uma esteira de minutos rolantes. Ultrapassado, permaneci, um farol patético de patas estúpidas fincadas na areia, reluzindo angústia em todas as direções, ansiando por um sinal, qualquer sinal, que emergisse do breu.
Pensava em Dora o tempo todo, tempo que aliás deixara para mim de ser linha e se transformara em funil, um grande funil. Tudo o que já me acontecera antes agora escorria pelo momento estreito daquele roçar de braços. Meu passado não existia mais por si só, mas somente em relação àquele instante.
E era um precioso instante impreciso. Pois eu havia feito amor com ela, mas não sabia se ela fizera amor comigo, de maneira que ficava difícil definir o ocorrido. Eu pensava que, se ela, em seu coração, repelisse silenciosamente a mim e a tudo aquilo que me inspirara, se meus devaneios tivessem de alguma forma violentado os desejos dela, o caso era de estupro, pois nem em pensamento se deve forçar uma aproximação com quem nos rejeita.
Mas então eu pensava que, se na minha elucubração eu tivesse agido de mansinho, sem que ela tivesse tempo de formular sim nem não, o caso era de masturbação, e a coisa morreria assim, um deleite solitário, sem ofender ninguém. Mas, se por um instante, assim de relance, Dora tivesse pensado em mim, apenas pensado, sem dor nem desejo, mas só esfumaçado sem formar figura, aí podia ser amor. Porque o amor, assim como a solidão bem doída, precisa de um outro para se fazer nascer. E também o amor, assim como a solidão bem doída, não se diz palavras, porque escoa na tradução. É preciso surpreendê-lo bruto, brotando.
O amor emerge dos olhos, na cor da íris de quem o parir. É igualzinho lágrima, mas tem o gosto doce. Se eu pudesse, lamberia os olhos de Dora como uma fêmea umedecendo a cria. Mas, para não criar alarde, decidi que seria melhor confiar o paladar aos meus próprios olhos. Queria olhar bem nos olhos de dela para adivinhar o gosto que tinham. Se fosse doce, não seria nem preciso tocá-la. Eu a possuiria pelos meus poros. Ela seria minha no meio da rua. Escandalosamente minha, ainda que ninguém se desse conta disso.
Amós II (ou o que eu autorizaria vc a dizer)
Certa vez ele declarou às visitas:
“Coração de mulher! Os maiores poetas tentaram em vão decifrar seus segredos. Vejam vocês, Schiller escreveu em algum lugar que não há em toda a Criação segredo mais profundo que o coração da mulher e seus meandros, e nenhuma mulher no mundo jamais revelou e jamais revelará a nenhum homem todos os segredos femininos. Schiller poderia simplesmente ter me perguntado, eu estive lá!”
Amós Oz, ”De Amor e Trevas”
Amós I
A única coisa que tínhamos em abundância eram livros. Incontáveis, de parede a parede, no corredor, na cozinha, na entrada e em todos os peitoris. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Havia um sentimento de que as pessoas Vão e vêm, nascem e morrem, mas os livros são eternos. Quando eu era pequeno, queria ser livro quando crescesse. Não escritor de livros, livro mesmo. Gente se pode matar como formigas. Escritores também não são difíceis de matar. Mas livros, mesmo se os destruímos metodicamente, sempre há chance de sobrar algum , nem que seja apenas um exemplar, a continuar sua vida de prateleira, eterna, discreta, silenciosa em uma estante esquecida de alguma biblioteca remota em Reykjavik, Valladolid ou Vancouver.
Quando eu tinha uns seis anos de idade, o grande dia chegou para mim: papai esvaziou um cantinho de uma de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá. Para ser mais preciso, ele me deu trinta centímetros, mais ou menos a quarta parte da prateleira mais baixa. (…) O indivíduo cujos livros ficam de pé já é um homem, não mais uma criança. Agora eu era como meu pai. Meus livros estavam de pé.
Cometi um erro terrível. Meu pai foi trabalhar, e eu estava livre para fazer no meu espaço da estante tudo o que eu quisesse. Mas eu tinha idéias completamente infantis sobre como fazer as coisas. Aconteceu, então, que eu arrumei os livros pela altura. Os mais altos eram justamente os que empurravam para baixo meu amor-próprio — eram livros infantis, com sinaizinhos indicando vogais, em versos, ilustrados, que eram lidos para mim quando eu era bebê. Coloquei-os na estante, porque queria preencher completamente todo o espaço que me havia sido cedido na prateleira. Quis que o meu cantinho de livros ficasse repleto, abarrotado, transbordando, como o de meu pai. Ainda estava tomado de euforia quando meu pai chegou do trabalho. Lançou um olhar surpreso para a minha prateleira, e depois fitou-me longamente, em absoluto silêncio, de um jeito que eu nunca vou esquecer: era um olhar de desprezo, de profundo desapontamento, que ia além de qualquer coisa que pudesse ser expressa por palavras, quase um olhar de total desespero genético. Por fim, sibilou entre dentes: “Diga-me, por obséquio, você está maluco? Pela altura? Por acaso os livros são soldados? Ou algum tipo de guarda de honra? É o desfile da banda de bombeiros?”.
E se calou. Fez-se um silêncio longo e terrível. Um silêncio tipo Gregor Samsa, como se eu tivesse ne transformado numa barata bem na sua frente. De minha parte também houve um silêncio, culpado, como se eu fosse de fato um mísero inseto e só naquele momento o tivesse percebido, e dali em diante tudo estivesse perdido para sempre.
Ao final do silêncio,meu pai me revelou, ao longo de vinte minutos, todos os fatos da vida. (…) Podemos arrumar livros pelos títulos, pelos nomes dos autores em ordem alfabética, por editoras, pela cronologia, por idiomas, pelo gênero e pelo assunto, e até pelo local em que foram impressos. Um leque de alternativas.
Foi assim que aprendi os segredos da diversidade: a vida é feita de diversas trajetórias. Tudo pode acontecer de um jeito ou de outro. Por sistemas diversos e por lógicas paralelas. Cada uma das lógicas aceitas é uma lógica consistente com sua própria visão, completa e coerente em si mesma, indiferente a todas as demais.
(…) Aprendi com os livros a arte da composição: não pelo que estava escrito neles, mas por eles mesmos, pela sua própria natureza física. Os livros me ensinaram sobre as regiões vertiginosas dessa terra de ninguém, ou zona de sombra, entre o permitido e o proibido, entre o legítimo e o excêntrico, entre o normativo e o bizarro. Essa lição tem me acompanhado por todos esses anos. Quando cheguei ao amor, já não era um recruta inexperiente, sabia que existem diversas combinações possíveis. Há a auto-estrada, há as estradas panorâmicas e há as sendas perdidas, quase inexploradas, que o pé do homem raramente palmilhou. Há o permitido que é quase proibido, e há o proibido que é quase permitido. Tem de tudo.
Amós Oz, ”De Amor e Trevas”
Sempre feliz, Miguilim
Dito começava a dormir, era a mesma coisa que Tomezinho. Miguilim não gostava de pôr os olhos no escuro. Não queria deitar de costas, porque vem uma mulher assombrada, senta na barriga da gente. Se os pés restassem para fora da coberta, vinha mão de alma, friosa, pegava o pé. O travesseirinho cheirava bom, cheio de macela-do-campo. Amanhã, ia aparar água de chuva, tinha outro gosto. Repartia com Dito. O barulho da chuva agora era até bonito, livre do moame do vento. Tio Terêz não tinha se despedido dele. Onde estava agora Tio Terêz? Um dia, tempos, Tio Terêz o levava à beira da mata, ia tirar taquaras. A gente fazia um feixe e carregava. “-Miguilim, este feixinho está muito pesado para você?” “-Tio Terêz, está não. Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca é pesado…”
João Guimarães Rosa, ”Manuelzão e Miguilim”
Última noite de tranqüilidade
O sentimento é o mais perto da verdade de que se pode chegar.