Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Novembro, 2008

Tríplice

A paixão é uma afirmação de liberdade.
O amor é uma experiência de transformação.
A origem do desejo é o maior dos mistérios.

Por aqui

Férias em São Paulo é estar doente passando bem.

A vida imita a arte

O analista é um espectador remunerado.

A seco

O deserto
é onde a Terra
expõe sua intimidade

Pings

ping – Então ela se apaixonou pelo príncipe.
pong – Charming?
ping – Não. Hamlet.

ping – Engraçado que em cada tradução esse trecho aparece de um jeito. “Fragilidade, teu nome é mulher”; “Inconstância, teu nome é mulher”; “Vulnerabilidade, teu nome é mulher.”
pong – Bom, isso já diz bastante.

Love story

Conheci meu segundo marido num balcão de padaria. Eu tinha 34 anos, mas parecia menos, bem menos. Não que me faltassem aqueles pequenos raios solares em torno dos olhos, cuja única luz que irradiam são a dos anos-luz que você já viu passar, mas uma elegante magreza havia embalado meu corpo como que para presente, encolhendo assim, como um lençol arrancado do colchão, a extensão da minha idade.

O motivo que me fizera emagrecer fora um enjôo, náusea de tristeza, história indigesta. Mas isso tinha sido antes. Àquela altura eu já me encontrava refeita, podes crer, e, perto do meu esplendor momentâneo, o que havia passado pouco me importava; nada no mundo me faria menos falta. Me sentia como a lagarta que passa um longo inverno à espreita dentro do casulo (ou seria a cigarra?) esperando pelo momento exato de desenrolar as asas e sair ventando, esfuziante como o tremular de uma palmeira caribenha.

O casulo em que eu me metera era a minha jeans 38, a jeans que baliza todo o resto do guarda-roupa (à direita do cabide, um futuro glorioso de baby looks; à esquerda, um embaraçoso passado de sacos de batata) e à qual fizera minha última visita guiada ainda no século 20.

Seu calibre 3.8 não me permitia esquecer sua presença jamais, e ainda assim eu me sentia mais feliz comprimida dentro dela do que respirando do lado de fora. Até porque, embalada naquilo, tudo ficava magicamente em ordem nas questões de ir e vir, uma derradeira derrocada alfandegária. Não sei se quando ele me viu eu estava indo ou vindo, mas certamente não foi nada do que disse (por favor, um misto; tem guardanapo?; dá para abaixar a TV?) o que lhe chamou a atenção.

Era um homem desses de verdade. Não de verdade-Homer-Simpson, mas de-verdade-mesmo, desses que choram por causa de futebol mas que também vertem lágrimas quando a novela é boa. Ele se sentou à minha frente, bem à minha frente, só que lá do outro lado do balcão. Me fitou por alguns segundos, cruzou as mãos e virou o rosto para o outro lado, como se estivesse distraído.

Eu sabia que ele não estava distraído, da mesma maneira que ele sabia que eu não estava lendo – à esta altura, eu apenas folheava páginas e fixava minha atenção numa letra por vez até que elas descolassem do papel como num teste de oculista. Mas fiz questão de manter a capa do livro colada no balcão – o que não era difícil dado o volume de gordura acumulado naquela superfície – para que ele passasse mais tempo me espreitando.

Não demorou mais de duas médias bem servidas para que ele pegasse seu copo americano e se sentasse ao meu lado, na respeitosa distância de dois banquinhos. O tilintar agudo do pequeno copo aterrissando foi acompanhado pelo sóbrio tilintar de uma Brahma, que perseguira seu destino pelas mãos impetuosas do atendente do cercadinho. Eram 11h30. Gostei desse cara, pensei.

O que você está lendo?, perguntou ele, fitando o aglomerado de pães de queijo murchos, quase encabulados por ouvirem a conversa. Norman Mailer, respondi. Aí sim, ele me olhou. Encarei-o como quem abre os olhos debaixo d’água. Já fui muito fã desse cara, ele disse, tirando os olhos dos meus para colocá-los de molho dentro do copo que suava por nossas quatro mãos.

Você tem jeito de que gosta mesmo, falei, como quem põe na mesa canastra incompleta. Ele ficou sério. Fez o copinho perder o dourado e bateu: Mas eu nunca esfaqueei uma mulher. Fim de jogo. Ou, ao menos, de rodada. E aposto que você já foi fã de Clarice Lispector. Respondi que sim, na época em que a calça que eu vestia tinha a mesma função de um inseto de coleção pregado com alfinete contra o vidro.

Sorrimos um silêncio mudo que durou o pedido de um cheesburguer, um PF de frango e uma Fanta. Então ele se levantou, bateu com a comanda no balcão e saiu olhando lá fora: Você vai se casar comigo, você sabe. Senti um par de asas rasgando as minhas costas.

Trâmites

- Vim lhe trazer isso, disse a mulher estendendo um envelope.
- Obrigado, respondeu o homem, entre.
- Você sabe que eu não tenho tempo para isso, disse a mulher, soltanto o envelope e segurando a alça da mala com as duas mãos, num grifo de sua partida.
- Bom, obrigado.
- De nada.
- Não quer entrar?
- Já disse que não tenho tempo.
- Bom, então…
- Então…
- Boa viagem.
- Obrigada.
A porta permanece aberta.

Réquiem para outubro

No dia dos mortos, enquanto caminho pelas ruas, percebo que, naturalmente, todos estão mortos. Talvez meio-mortos, assim como há os pesos-pena, os médio-penas e os pesos-pesados, meio-termos de difícil compreensão. Penso que jamais poderia afirmar categoricamente se aquele que passou por mim é um morto ou um vivo, já que os rostos nos assombram independentemente da carne que os constitui. As feições chegam aos nossos olhos como a luz das estrelas, emitidas há um tempo que é tanto que não se calcula; agora, são apenas memórias passadas e as projeções de memórias futuras.

No dia dos mortos, não dintinguo viv’alma. Nem mesmo a minha, que se limita a vagar penadamente por aí, espírito de natal que antecipa sua visita perdendo assim seu propósito de ser. Nas ruas, as casas já cantam, dançam e se sacodem assombradamente. Não há tempo para luto. Mal finado o mês de outubro, já começam as festividades do que ninguém sabe bem por que celebrar.

Outubro não morre, outubro é morto. É o mês mais brutalmente assassinado de todo o ano, pisoteado pela pressa fúnebre de se entererrar logo a coleção de contas-memórias presas no mesmo fio-de-ano. E, no entanto, minha vida inteira cabe neste mês de outubro, uma única folha de calendário como retrospecto de tudo o que se é, se está, será. Será?

Outubro, espelho e síntese da existência, tem seu nascimento anunciado pelo despertar da mais brilhante estrela; depois, afirma sua juventude no dia das crianças, regozija-se em maturidade nas festividades das horas e morre no dia das bruxas, lançando ainda seu último suspiro no dia de finados. Outubro é a vida que nos assombra, mais assombrosa ainda por sua familiaridade com a própria morte. Outubro não apresenta resistência a seu fim; se deixa ir, resignado, sereno, entregue ao tempo e certo de que logo, logo, novembro e dezembro estarão mortos também.