Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Arquivo para Dezembro, 2008

A cobrar

- Telefone.
A mulher fecha o livro de súbito. Olha o horizonte como se fosse aparecer desenhado em pleno ar o nome de quem liga. Nada. Então levanta-se. Queria confirmar se era a ligação é mesmo para ela, mas sua presença solitária no quarto silencia pergunta e resposta. Caminha até o telefone, projetando na parede branca da mente rostos de todos os conhecidos passíveis ligar àquela hora. Clac, Pedro, clac, João, clac, Célia, clac, mamãe, clac, engano, clac, emudece. Clac. Clac. Clac. O último slide é tela pintada a óleo.
- Alô?
- … Cláudia?
A mulher emudece. Suas mãos formigam, as pernas envergam, a voz se encolhe na goela.
- Cláudia? Cláudia? Nem acredito, nem acredito que eu consegui, olha, olha, estou ligando, é preciso falar rápido,  não posso demorar, é que, é que eu só queria, bom, você sabe, é Natal, se bem que eu nem ligo para isso, mas, sabe, fiquei com vontade de perguntar se você, de dizer que… é difícil falar assim, sabe, Cláudia, às vezes, eu tenho pensado e queria saber se, bom, é que eu preciso te perguntar uma coisa, eu andei pensando aqui e, sei lá, preciso saber, você, você, você pensa em nós?
A ligação cai. Nenhum som conseguira escapar daqueles lábios paralisados. A mulher põe o telefone no gancho e com o mesmo movimento repousa a palma sobre o peito disparado. Senta-se. Tenta convergir todos os seus sentidos em um funil de espera. Vai chamar novamente. A qualquer instante, vai chamar. Melhor não sair dali. Conter-se naquele instante. Passam os minutos. Tornam-se horas. Alguns dias. Viram semanas. Se vão os meses. Já faz um ano. Dois. Três, cinco. Dez anos atrás, foi a última vez que nos falamos, ela dirá. Seu futuro aprisionado para sempre em um mísero instante. Sim. Não há um dia em que ela não pense.

Quase bonito

Não me importo, não, moça, que é só essa cara que Deus me deu.
Por fora é bem feio, mas, por dentro, não é muito.

Égua

Rolocompressada
pelo que nem sei que foi
Emparedada
pelo sei lá porvir
Embebida em
maledicência turva
História grandemiúda
desengano do acerto vão

Desatino alazão
Cadência alada
Pelugem chamuscada
tempo rente ao chão

Trote
piso vôo queda
Mote
cocho passo merda
Segue
sina cela égua
Eia
dor bloqueio cega
Queda
corpo terra entrega
Mansidão

Mas teimo
Ergo trôpego corcel
rubiscado da luz de tarde acabada
da própria vida quase finada
montaria avariada, presta mais pra nada
besta morta sem chegar lugar nenhum

Se esvai em vão
mas antes toma ainda a última chibatada
pra que tenha na pele selada
a marca do verme  que carcome em oração
crime passa, castigo não

brutaflor

Very sure

Você sabe que a operação de vista da sua avó deu certo quando ela pergunta se você fez a sobrancelha.

Dia claro

O pai de família saca do bolso a carteira carcomida. O McLanche Feliz custa R$ 12. A mulher e as duas filhas esperam ao lado, quietas, atentas e muito dignas. Ele paga dois, as duas escolhem a girafa, e a mãe acha bom porque assim não vai ter briga depois. Os quatro se sentam, mas a mulher e o marido não comem. Não há dinheiro suficiente. Quando chegarem em casa, depois de esperar 40 minutos pelo ônibus, passar outros 40 dentro dele e caminhar outros 15, ela preparará algo para os dois. Por ora, o estômago ronca, mas as crianças brincam. Isso o que importa, ela pensa, enquanto o marido cutuca o couro curtido da carteira buscando trocados para a volta.

De bermuda, chinelo e nenhum dente, ela abre a mão para a atendente, um ninho de moedas chocas. Uma casquinha de creme. A atendente recolhe as rodelinhas suadas e silencia, faltam cinquenta centavos. A desdentada se vira, Valdir, ô Valdir, enquanto Valdir revira a lata de lixo da frente. A atendente se desculpa, erro meu, na verdade está sobrando vinte centavos. Os olhos da senhora brilham que nem interruptor no escuro. Sorri bem sorrindo a todos a sua volta que, espantados com os buracos que ela carrega na boca, olham solenemente para o chão. Valdir ensaca duas latas de coca-cola.

As meninas empurram da roda a mais pretinha. A mais birrenta delas começa a gritar você é azul, você é azul, minha mãe falou que você é azul. A pretinha cruza os braços bem em cima do peito, guardando as palmas das mãos entre os suvacos e formando na testa uma seta apontada para o chão. Ouve quieta, cachinhos escorrendo pelas xiquinhas cor-de-rosa como pequenas quedas d´água. Depois desamarra o beiço e grita não sou azul, não sou azul, sou negra. Sou negra.

A tiazinha toda enrolada em pano velho cachoalha um tupperwere com cinco dez centavos. Moço… moça… moça… piedade… moço… Vira a esquina uma mulher de uns 30, saia curta e bota alta, se escorando num gordão suado. Seus pés não pisavam reto desde às 3h30. São 9h. A tiazinha pára seu tremelique insistente e o choramingo de pobre coitada e bota os olhos estáticos naquela mão peluda se enfiando pelas coxas brancas em plena luz do sol. Pasma. Ou porque lembrou como é que era ou porque é crente ou porque agora há coisa que chame mais a atenção dos passantes do que seu monótono tupperwere.

Notas da redação

Gravador é porta-jóias de palavras

Caneta, arma de fogo
Tinta —rastro de pólvora
Bloco cacetete

Ser dono do campo
não é ser dono da bola