Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Janeiro, 2009
Teoria da relatividade
- Ah, ele deve ter uns 35. Só tem uns branquinhos nos paralamas.
- 35? Imagina! Se o Roberto já tem 45, ele com certeza tem bem mais de 40.
- Não… acho que não. Porque olha, eu tenho 50…
- Você tem quase 60.
- Eu não! Hoje eu nadei 1.200 metros!
- E daí? Isso não muda a sua idade.
- Você que pensa.
Fogueira
Cansaço marcial
da arte milenar
de empregnar sonhos
com fuligem lúcida
Chaminé da alma
obstruída pela
ansiedade estúpida
O peito arde
retorcido de intoxicação
sem conseguir lançar aos céus
suas utopias cinzas de combustão
Ferreira Gullar
Você acredita que a pessoa se torna mais lúcida, mais criativa, mais capaz, se tem uma obsessão?
Não sei dizer qual é o sentido de obsessão. Ter um propósito determinado não torna ninguém mais lúcido. Estar comprometido com uma ideia política, por exemplo, e utilizar a literatura como instrumento para modificar a sociedade pode não ser uma atitude de alguém lúcido. A pior coisa é ser dono da verdade. Não questionar os próprios valores e certezas é perigoso. E não se pode também relativizar as coisas. Eu, por exemplo, me questiono se poesia é literatura.
Como assim?
Vem do fato de eu não ter controle sobre minha criação, sem normas preestabelecidas. É diferente. O romancista constrói uma trama elaborada, que exige um esboço; já o poeta vive do inesperado e até se surpreende com o que escreve.
Ferreira Gullar, no OESP de hoje
Bonfim
Seu Walmor não vem hoje. É que ontem foi Festa do Bonfim. Aí ele foi lá. Vai ficar por lá uns dias, na terra dele. Lá do lado do Bonfim. Teve festa. Todo ano tem. Sempre quinta-feira, quinta de janeiro, segunda quinta-feira depois do Dia de Reis. Fica todo mundo de branco. Que branco é a cor do Bonfim, cor de Oxalá. As mulheres de branco. Saia rodada, rendada, rodando. Vassoura e balde na mão. Balde com água de cheiro. Vão tudo pra lá. Vão lá lavar a escadaria. Tudo perfumado. Limpam tudo. Limpam a alma. Tudo limpo pra começar de novo. Que Bonfim é bom começo.
Onirofóbico
Era onirofóbico. Podia até dormir, mas tinha pavor de sonhar. Aflição de imaginar que podia imaginar. Angústia do que é sem fim, da possibilidade de que, naquele cercadinho de lençol e colchão, coubesse qualquer, toda e absolutamente, indistintamente, ilimitadamente, ambas e várias, todas as coisas desse e de outros mundos que existem e nunca existirão. Medo de produzir histórias belas demais, de não se curar do que é lindo e pleno e bom. Economia dos sentidos fixados pela ficção inútil, censura anti banalização das delícias, combate prévio do ridículo provocado pelo torpor dos devaneios, amarras contra a perda de noção fútil, a eira e a beira, peneira lógica das possibilidades tapadas pelo sol, concretude viável de existência palpável, programada em sentido único, otimizada pelas leis do mercado estridente e somente justificável no âmbito da verossimilhança realista. Entrega. Prazer. Momento. Ameaças à ordem cabível catapultados pelo fechar dos olhos. Pois era preciso poupar, resguardar e conservar intocados, por anos a fio, a beleza, o sublime, o milagre, antes que a poesia se tornasse presente demais, antes que ela abrisse espaço àquela corda de lenços multicoloridos que saem da cartola amarrados uns aos outros, uns aos outros, uns aos outros, plenitude, eternidade, infito, multicolorido, fantástico, maravilha, deslumbramento. Quem sabe até Deus aparecesse na outra ponta. Mas não. Seu sono leve era temporizado para planar em águas claras, aplainar ímpetos de imensidão. Tinha horror ao retorno, à dor de se saber indo tão longe com a bola de ferro do despertar presa ao pé. Achava por bem nem ir. O que sofria era incurável, congênito e auto-imune: fadado a estar acordado, jamais veria o que não se vê de olhos abertos, o palatável é a degustação do nonsense.
Um pouco de sonho
Eu e Marilyn Monroe observávamos em silêncio os arcos das casas antigas iluminadas pela luz fraca dos postes, e atravessamos debaixo de um dos arcos e eu e ela nos sentíamos felizes de estar um ao lado do outro, e não era preciso que eu dissesse para ela o que eu sentia, nem era preciso que ela dissesse para mim que ela estava feliz. Eu e ela percorríamos as ruas escuras e vazias entre casas antigas com as altas janelas iluminadas, e ela olhava tranquila para mim de instante a instante como se pretendesse descobrir em mim a alegria que sentia. (…) Eu toquei na cabeça de Marilyn Monroe e levantei seu corpo facilmente e coloquei Marilyn Monroe sobre os meus ombros. Eu caminhei no escuro segurando o seu corpo pelas pernas e senti com os dedos que ela estava nua. Eu carregava Marylin Monroe e deslizava facilmente no solo, e eu disse para ela que eu não a conhecia e eu a amava muito, e que não importava quem ela fosse e que eu a amava muito, e ela pedia que eu repetisse o que eu dizia, e eu continuava transportando Marilyn Monroe no meu ombro e atravessava o escuro. E eu repeti para ela que meu amor era eterno, e que eu não a conhecia. Ela continuava suplicando com uma voz fraca que eu repetisse que eu a amava muito, e eu repetia, caminhando no escuro e transportando o seu corpo nu nos meus ombros, que eu a amava muito. Começou a chover e eu e Marilyn Monroe caminhávamos na chuva. Eu atravessei a praça e Marilyn Monroe falava comigo. A água da chuva escorria pelo meu rosto e eu engolia algumas gotas. Eu estava na praça e via a chuva riscar as árvores. Eu e ela atravessamos a avenida saltando poças de água, e no último salto eu e Marilyn permanecemos nos equilibrando na calçada para não cairmos na enxurrada que mergulhava no bueiro. A multidão olhava a imensa abóboda do céu coberta de nuvens transparentes.
José Agrippino de Paula, “Pan-América”
Cem dúvida
30% da cura depende da empatia entre médico e paciente, diz o doutor.
73% dos acidentes ocorrem perto da residência do motorista, diz a CET.
68% das vezes que bate pênaltis, esse artilheiro acerta, diz o técnico.
4% dos alunos foram reprovados no final do ano, diz a diretora.
75% das mulheres preferem fazer cesariana, diz o obstetra.
8% da correspondência é extraviada, diz o entregador.
99% dos homens gostam de boquete, diz a prostituta.
0,000001% de chances de ganhar na mega-sena, diz o otimista.
20% dos gastos terão de ser cortados, diz o administrador.
2% dos dálmatas são albinos, diz o veterinário.
Para quem nunca entendeu probabilidade
E sempre achou que só existem sim e não
É mesmo uma novidade
Pensar em quantos porcento da realidade
dependem do desejo e da imaginação.
Gasômetro
Sabe, querida, os amores são como certas músicas, aquelas que começam de leve, sem que a gente perceba, que apenas pairam sem tocar em nada, que nos chegam como a brisa que alcança os cabelos, como um tempero que enebria o paladar. Ficamos ali admiradas, achando que o mundo gira numa plenitude secreta, nos deixando envolver tão serenamente que só notamos o que está acontecendo quando asfixiamos.