Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Clara

Sentaram-se em silêncio, mesa do canto. Ela olhava para os lados fingindo-se distraída ; ele sorria resignadamente encarando as próprias mãos cruzadas. Queria entender esse seu interesse todo em mim, disse ela, mantendo o tom com que pedira o chá, no mesmo ritmo em que, em breve, chacoalharia a infusão na água fervente, a indiferença com que escaldava-o também. 

Virou-se para o espelho inclinando a testa e retraindo o queixo. Ajeitou os cabelos, claros como o pedaço de manhã no chão. A luz escalava o pé da mesa calando a vista. A mulher penteava a franja com os dedos, tear de raios. Certamente esperava um elogio, pensou ele.

Não estou interessado em você, disse o homem, expirando um sentimento expirado, exceto pelo fato de que você me lembra muito uma pessoa. A mulher parou. Pelo espelho, sua testa era agora um solo arado, mas o batom continuava no lugar.

E quem seria? Uma pessoa. Que pessoa? Uma pessoa que conheci. Namorada? Mais ou menos. Que você nunca mais viu? Não vejo há tempos. E pretende matar a saudade comigo? Impossível. Nisso concordamos. Mas a verdade é que a mulher relutava em acreditar que se resumisse a uma réplica de objeto de desejo. Deve tratar-se de uma estratégia de conquista, pensava mexendo a colher de prata, relampejando pelas paredes.

Me casei com 22 anos. Cinco filhos, todos homens, mas nunca deixei de querer uma garota. Um dia então conheci essa mulher, essa mulher que você me faz lembrar. Nos apaixonamos e ficamos juntos por um tempo, mas as coisas não deram certo e nos afastamos. Anos depois, soube que tivera um bebê. Nada descobri do pai, apenas que a criança tinha a idade da nossa separação.

Uma menina, aposto! Eu ficava imaginando uma garotinha com cabelinhos de trigo correndo de braços abertos pra mim. Você tem uma menininha!! Sonhava tanto com isso que já parecia uma lembrança desbotada de sol. Quem diria, pai de uma garota! Já tinha até pensado no nome, Clara, clara como a mãe. Clarinha.

Um dia eu estava na fila do supermercado, sábado à tarde, alguém segurou meu braço. Ela. Lindíssima, radiante. Com a sua garotinha!?! De trás das pernas dela, sai uma pequena figura, tímida, se enroscando toda. Loirinha, de cor de rosa?? Uma coisinha miúda, tão pequena. Braços abertos para você?? Finalmente, sua filha! Um menino. Incontestavelmente meu.

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