Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Agosto, 2009
O velho e o mar
Tinha na cara um mapa. Espelho de pele dos lugares por onde passou. Os caminhos que o tempo rasgara em seu rosto iam do nada a lugar nenhum. E seus olhos olhavam como quem sabia disso. Vertiam como quem não acha saída. Mas quando o velho chorava, suas lágrimas não corriam. Esparramavam-se pelos vergões afora e adentro e empoçavam. O velho ficava com a cara toda irrigada de água e sal. Então vento batia contra o molhado da cara e refrescava o fardo, desafogando aquele mapa sem rumo. O velho achava graça e ria, como se já não fosse demasiada a profusão de caminhos estampados na cara.
Entremeado
Entremeados entremeios entre maios entre medos entre e saia mais ou menos entre miados macumbeiro enlameado em fevereiro cama de gato cupinzeiro balacobaco bagageiro bicho do mato atoleiro
Caçada
A angústia imprime suas patas no rastro da pressa desatinada. Galhos secos estalam arranhando o silêncio surdo. Lá vem o que não se vê. Corpo ofegante irradia a ânsia do desfecho, como a pedra que circula ao redor de si a calma que rouba do lago. Potência adestrada pelo lodo manso, sufocante quietude do declíneo. Pupilas de água parada refletem a carne estraçalhada pelo destino canino. Redenção. A presa é mais aflita quando solta.
O resto imortal
Queria não morrer de todo. Não o meu melhor. Que o melhor de mim ficasse, já que sobre o além sou todo dúvidas. Queria deixar aqui neste planeta não apenas um testemunho da minha passagem, pirâmide, obelisco, verbetes numa obscura enciclopédia, campos onde não crescem mais capim.
Queria deixar meu processo de pensamento, minha máquina de pensar, a máquina que processa meu pensamento, meu pensar transformado em máquina objetiva, fora de mim, sobrevivendo a mim.
Durante muito tempo, cultivei esse sonho desesperado.
Um dia, intuí. Essa máquina era possível.
Tinha de ser um livro.
Tinha de ser um texto. Um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto pensado. Eu precisava de um teexto pensante. Um texto que tivesse memória, produzisse imagens, raciocinasse. Sobretudo, um texto que sentisse como eu.
Ao partir, eu deixaria esse texto como um astronauta solitário deixa um relógio na superfície de um planeta deserto.
Claro que eu poderia ter escolhido um ser humano para ser essa máquina que pensasse como eu penso. Bastava conseguir um aluno. Mas pessoas não são previsíveis. Um texto é.
A impressão do meu processo de pensamento não poderia estar na escolha das palavras nem no rol dos eventos narrados. Teria que estar inscrito no próprio movimento do texto, nos fluxos da sua dinâmica, traduzido para o jogo de suas manhas e marés.
Um texto assim não poderia ser fabricado nem forjado. Só poderia ser desejado. Eu mesmo escolheria, se quisesse, a hora de seu advento.
Tudo o que eu poderia fazer nessa direção era estar atento a todos os impulsos, mesmo os mais cegos, nunca sabendo se o texto estava vindo ou não.
Era óbvio, um texto assim teria, no mínimo, que levar uma vida humana inteira. Na melhor das hipóteses.
Uma questão colocou-se desde o início. A tensão da espera de um tal texto poderia ser o maior obstáculo para seu surgimento. Quanto a isto, não havia solução. A questão teria que ser vivida em nível de enigma e conflito, sigilo e dissimulação.
Evidentemente que o texto que resultasse desse estado deveria, por força, reproduzi-lo em sua essencial perplexidade. A máquina-texto que surgisse não seria um todo harmônico, já que a harmonia só convém às coisas mortas. O que eu pretendia era uma coisa viva, uma vida que me sobrevivesse. E a vida é contraditória.
Não seu mais se esse texto virá. Ou se já veio.
Tudo o que quero é que, se vier, se lembre de mim tanto quanto eu soube desejá-lo.
Paulo Leminski