Volumetria

S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.

Latrina

Sou a mãe dos poetas do México. Sou a única que se aguentou na universidade em 1968, quando os granadeiros e o exército entraram. Fiquei sozinha na faculdade, trancada numa latrina, sem comer por mais de quinze dias, não lembro mais. Fiquei com um livro de Pedro Garfias e minha bolsa, vestida com uma blusinha branca e uma saia plisada azul-clara, e tive tempo de sobra para pensar e pensar. Mas não pude pensar em Arturo Belano, porque ainda não o conhecia.

Eu me disse: Auxilio Lacouture, resista, se você sair vão prender você (e provavelmente vão deportá-lapara Montevidéu, porque, evidentemente,você não estácom sua documentação em ordem, sua boba), vão cuspir em você, vão espancá-la. Decidi resistir. Resistir à fome e à solidão. Dormi as primeiras horas sentada na latrina, a mesma que havia ocupado quando tudo começou e que em meu desamparo achava que me dava sorte, mas dormir sentada num trono é muito incômodo, de modo que acabei encolhida nosladrilhos. Tive sonhos, não pesadelos, sonhos musicais, sonhos de perguntas transparentes, sonhos de aviões esbeltos e seguros que cruzavam a América Latina de ponta a ponta num brilhante e frio céu azul. Acordei congelada e com uma fome dos diabos.

Espiei pela janela, pela ventilação dos lavatórios, e vi a manhã de um novo dia em peças do campus, como as peças de um puzzle. Dediquei aquela primeira hora da manhã a chorar e a dar graças aos anjos do céu por não terem cortado a água. Não adoeça, Auxilio, disse a mim mesma, beba toda a água que quiser, mas não adoeça. E me deixei cair no chão, com as costa apoiadas na parede, então abri outra vez o livro de Pedro Garfias. Meus olhos se fecharam. Devo ter adormecido. Depois ouvi passos e me escondi na minha latrina (essa latrina é o cubículo que eu nunca tive, essa latrina foi minha trincheira e meu palácio do Duíno, minha epifania do México). Depois li Pedro Garfias. Depois adormeci. Depois fui olhar pela janelinha do banheiro, vi nuvens altíssimas e pensei nos quadros do Dr. Alt e na região mais transparente.

Depois fiquei pensando em coisas lindas. Quantos versos sabia de cor? Comecei a recitar, a murmurar os que eu recordava e teria gostado de poder anotá-los; entretanto, embora tivesse uma Bic, não tinha papel. Depois pensei: boba, você tem o melhor papel do mundo à sua disposição. Cortei então papel higiênico e comecei a escrever. Depois dormi e sonhei, ai, que engraçado, com Juana de Ibarbourou, sonhei com seu livro “La rosa de los vientos”, de 1930, e também com seu primeiro livro, “Las lenguas de diamante”, que título lindo, lindíssimo, quase como se fosse um livro de vanguarda, um livro francês escrito ano passado, mas Juana da América o publicou em 1919, isto é, aos vinte e sete anos, que mulher mais interessante devia ser na época, com todo mundo à sua disposição, com todos aqueles cavalheiros dispostos a executar elegantemente as suas ordens (cavalheiros que não existem mais, embora Juana ainda exista), com todos aqueles poetas modernistas dispostos a morrer pela poesia,com tantos olhares, com tantos galanteios, com tanto amor. Depois acordei. Pensei: sou a recordação. Foi o que pensei.

Depois voltei a dormir. Depois acordei e durante horas, dias talvez, chorei pelo tempo perdido, por minha infância em Montevidéu, por rostos que ainda me perturbam (que hoje me perturbam mais que antes) e sobre os quais prefiro não falar. Então perdi a conta de há quantos dias estava trancada. Da minha janelinha eu via passarinhos, árvores ou galhos que se estendiam de lugares invisíveis, arbustos, relva, nuvens, paredes, mas não via gente nem ouvia ruídos, e perdi a conta do tempo que estava trancada. Depois comi papel higiênico, talvez me lembrando de Carlitos, mas só um pedacinho, não tive estômago para comer mais. Depois descobri que não estava mais com fome.

Em seguida, peguei o papel higiênico em que havia escrito, joguei tudo na latrina e dei a descarga. O barulho da água me fez dar um pulo, então pensei que estava perdida. Pensei: apesar de toda a minha astúcia e de todos os meus sacrifícios, estou perdida. Pensei: que ato poético destruir meus escritos. Pensei: melhor teria sido comê-los, agora estou perdida. Pensei: a vaidade da escrita, a vaidade da destruição. Pensei: porque escrevi, resisti. Pensei: porque destruí o escrito vão me descobrir, vão me pegar, vão me violentar, vão me matar. Pensei: ambos os fatos estão relacionados, escrever e destruir, se esconder e ser descoberta. Depois me sentei no trono e fechei os olhos. Depois adormeci. Depois acordei. Estava com cãimbras no corpo todo.

Roberto Bolaño, “Os Detetives Selvagens”

2 Comentários »

  paula wrote @

retomou o bolaño?

  volumetria wrote @

nunca o abandonei!
tampouco estou perto de terminá-lo…


Seu comentário

HTML-Tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>