Deixou o calor do próprio corpo esfriando sobre os lençóis e saiu perambulando pela casa dormente. A visão granulada, de remela, resto de sonho e falta de foco, se embaralhava mais ainda no desenho miúdo da renda da camisolona. Parou do lado da porta de vidro, espiando o vento que assobiava lá fora. Colado do lado de lá, um gatinho se encostava pisca-piscando manso, todo eriçado de frio. Comovida, arrastou as meias bem rente à porta e botou as mãozinhas no metal gelado, forçando o deslizar envidraçado. Gatinho nem mexeu. Virou só o pescoço peludo e cerrou olhinhos em marcha lenta, charminho chamando resgate. Fisgadas, as mãozinhas se puseram a agradinhos e quetais, enquando a fala mansa dizia outras meiguices diminutivas.
No crescer da intimidade, as mãozinhas içaram o gatinho do chão e o acolheram junto ao ventre rendado. Das patinhas macias brotaram espetos instantâneos, e o bichano se pôs a escalar o delicado entrelaçado da camisolona, fincando as unhas nos finos fios, misturando sua garra opaca ao tênue rendado, carícia e pavor entremeados. O susto fez a menina querer se afastar. Dedinhos duros ao redor da barriga e do dorso do bicho, puxando aquele corpo peludo –que de quase familiar era agora encarnação de ameaça– para longe do seu. Que nada. O gato envergava e não soltava, tenda de renda suspensa no espaço. Quanto mais força faziam os dedinhos, mais tentava subir o gato, mais se descosturavam os fios, mais suavam as mãos, mais bambeavam as pernas. Tentou gritar, mas a voz apenas arranhou a garganta sem fazer som, criatura cravando a própria sobrevivência com as extremidades.
Prezado Volumetria,
fico pensando como é enganosa a Web. No primeiro momento que li teus textos, pensei em um Dalton Trevisan da nova geração.
Para ser mais preciso, um similar de Marcia Denser da nova geração. Mas ninguém conhece Marcia Denser mais — então fica Dalton mesmo.
Vale dizer que em Marcia Denser a intimidade era relatada com prazer e elegância. Em Dalton, há muita dor.
Em teus textos antigos, sentia não a dor, mas o que a sociedade considera talvez sujo. Mais como Dalton do que como Marcia.
Mas agora não, agora você se tornou um poeta, com textos em geral muito líricos. Ainda há um eco de boemia: os personagens estão sempre acordando — mas podem ser crianças, aparentemente.
Deve ser por isso que o autor fala de Fases. Gostaria de ter guardado os originais.
Vou ter que aguardar a tarde de lançamento do livro. Provavelmente vai ser muito movimentado, mas quem sabe converso pessoalmente com o inteligente e sensível autor.
Abraços,
Penfield