Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Arquivo para Uncategorized
Passagem
Cacos de dia, beijos estilhaçados, carinho interrompido, saudade irradiada. Noite remendada, desejo entorpecido, sonhos dormentes, solidão contida. Tarde amornada, aflição de sossego, tédio roendo, paz deslocada. Madrugada súbita, horas piscando, olhos abertos, punhos fechados, ânsia do tempo que passa e do que não passa também.
Extremidades
Deixou o calor do próprio corpo esfriando sobre os lençóis e saiu perambulando pela casa dormente. A visão granulada, de remela, resto de sonho e falta de foco, se embaralhava mais ainda no desenho miúdo da renda da camisolona. Parou do lado da porta de vidro, espiando o vento que assobiava lá fora. Colado do lado de lá, um gatinho se encostava pisca-piscando manso, todo eriçado de frio. Comovida, arrastou as meias bem rente à porta e botou as mãozinhas no metal gelado, forçando o deslizar envidraçado. Gatinho nem mexeu. Virou só o pescoço peludo e cerrou olhinhos em marcha lenta, charminho chamando resgate. Fisgadas, as mãozinhas se puseram a agradinhos e quetais, enquando a fala mansa dizia outras meiguices diminutivas.
No crescer da intimidade, as mãozinhas içaram o gatinho do chão e o acolheram junto ao ventre rendado. Das patinhas macias brotaram espetos instantâneos, e o bichano se pôs a escalar o delicado entrelaçado da camisolona, fincando as unhas nos finos fios, misturando sua garra opaca ao tênue rendado, carícia e pavor entremeados. O susto fez a menina querer se afastar. Dedinhos duros ao redor da barriga e do dorso do bicho, puxando aquele corpo peludo –que de quase familiar era agora encarnação de ameaça– para longe do seu. Que nada. O gato envergava e não soltava, tenda de renda suspensa no espaço. Quanto mais força faziam os dedinhos, mais tentava subir o gato, mais se descosturavam os fios, mais suavam as mãos, mais bambeavam as pernas. Tentou gritar, mas a voz apenas arranhou a garganta sem fazer som, criatura cravando a própria sobrevivência com as extremidades.
Latrina
Sou a mãe dos poetas do México. Sou a única que se aguentou na universidade em 1968, quando os granadeiros e o exército entraram. Fiquei sozinha na faculdade, trancada numa latrina, sem comer por mais de quinze dias, não lembro mais. Fiquei com um livro de Pedro Garfias e minha bolsa, vestida com uma blusinha branca e uma saia plisada azul-clara, e tive tempo de sobra para pensar e pensar. Mas não pude pensar em Arturo Belano, porque ainda não o conhecia.
Eu me disse: Auxilio Lacouture, resista, se você sair vão prender você (e provavelmente vão deportá-lapara Montevidéu, porque, evidentemente,você não estácom sua documentação em ordem, sua boba), vão cuspir em você, vão espancá-la. Decidi resistir. Resistir à fome e à solidão. Dormi as primeiras horas sentada na latrina, a mesma que havia ocupado quando tudo começou e que em meu desamparo achava que me dava sorte, mas dormir sentada num trono é muito incômodo, de modo que acabei encolhida nosladrilhos. Tive sonhos, não pesadelos, sonhos musicais, sonhos de perguntas transparentes, sonhos de aviões esbeltos e seguros que cruzavam a América Latina de ponta a ponta num brilhante e frio céu azul. Acordei congelada e com uma fome dos diabos.
Espiei pela janela, pela ventilação dos lavatórios, e vi a manhã de um novo dia em peças do campus, como as peças de um puzzle. Dediquei aquela primeira hora da manhã a chorar e a dar graças aos anjos do céu por não terem cortado a água. Não adoeça, Auxilio, disse a mim mesma, beba toda a água que quiser, mas não adoeça. E me deixei cair no chão, com as costa apoiadas na parede, então abri outra vez o livro de Pedro Garfias. Meus olhos se fecharam. Devo ter adormecido. Depois ouvi passos e me escondi na minha latrina (essa latrina é o cubículo que eu nunca tive, essa latrina foi minha trincheira e meu palácio do Duíno, minha epifania do México). Depois li Pedro Garfias. Depois adormeci. Depois fui olhar pela janelinha do banheiro, vi nuvens altíssimas e pensei nos quadros do Dr. Alt e na região mais transparente.
Depois fiquei pensando em coisas lindas. Quantos versos sabia de cor? Comecei a recitar, a murmurar os que eu recordava e teria gostado de poder anotá-los; entretanto, embora tivesse uma Bic, não tinha papel. Depois pensei: boba, você tem o melhor papel do mundo à sua disposição. Cortei então papel higiênico e comecei a escrever. Depois dormi e sonhei, ai, que engraçado, com Juana de Ibarbourou, sonhei com seu livro “La rosa de los vientos”, de 1930, e também com seu primeiro livro, “Las lenguas de diamante”, que título lindo, lindíssimo, quase como se fosse um livro de vanguarda, um livro francês escrito ano passado, mas Juana da América o publicou em 1919, isto é, aos vinte e sete anos, que mulher mais interessante devia ser na época, com todo mundo à sua disposição, com todos aqueles cavalheiros dispostos a executar elegantemente as suas ordens (cavalheiros que não existem mais, embora Juana ainda exista), com todos aqueles poetas modernistas dispostos a morrer pela poesia,com tantos olhares, com tantos galanteios, com tanto amor. Depois acordei. Pensei: sou a recordação. Foi o que pensei.
Depois voltei a dormir. Depois acordei e durante horas, dias talvez, chorei pelo tempo perdido, por minha infância em Montevidéu, por rostos que ainda me perturbam (que hoje me perturbam mais que antes) e sobre os quais prefiro não falar. Então perdi a conta de há quantos dias estava trancada. Da minha janelinha eu via passarinhos, árvores ou galhos que se estendiam de lugares invisíveis, arbustos, relva, nuvens, paredes, mas não via gente nem ouvia ruídos, e perdi a conta do tempo que estava trancada. Depois comi papel higiênico, talvez me lembrando de Carlitos, mas só um pedacinho, não tive estômago para comer mais. Depois descobri que não estava mais com fome.
Em seguida, peguei o papel higiênico em que havia escrito, joguei tudo na latrina e dei a descarga. O barulho da água me fez dar um pulo, então pensei que estava perdida. Pensei: apesar de toda a minha astúcia e de todos os meus sacrifícios, estou perdida. Pensei: que ato poético destruir meus escritos. Pensei: melhor teria sido comê-los, agora estou perdida. Pensei: a vaidade da escrita, a vaidade da destruição. Pensei: porque escrevi, resisti. Pensei: porque destruí o escrito vão me descobrir, vão me pegar, vão me violentar, vão me matar. Pensei: ambos os fatos estão relacionados, escrever e destruir, se esconder e ser descoberta. Depois me sentei no trono e fechei os olhos. Depois adormeci. Depois acordei. Estava com cãimbras no corpo todo.
Roberto Bolaño, “Os Detetives Selvagens”
Copacabana
O lápis borrado, o batom sem contorno, os cílios perdidos. Cabelos melados puxados para trás e amontoados para cima, animal eriçado tentando escapar do alagamento. Os músculos do antebraço untados de suor e purpurina, o volume dos seios disformes, as costas largas retesadas pela blusa de lycra. A manhã de sol a pino revelava pêlo por pêlo sua hibridez embriagada. Esfregava a cara com a palma encardida, apatia arruinando a delicadeza exaustivamente ensaiada. O sapato anabela pendurado no braço balançava náufrago, jogado ao movimento das ondas do calçadão. Pirata do sexo em mares de alfalto, levava consigo seu tesouro enterrado. Andava na prancha para não se afogar no próprio fetiche.
O velho e o mar
Tinha na cara um mapa. Espelho de pele dos lugares por onde passou. Os caminhos que o tempo rasgara em seu rosto iam do nada a lugar nenhum. E seus olhos olhavam como quem sabia disso. Vertiam como quem não acha saída. Mas quando o velho chorava, suas lágrimas não corriam. Esparramavam-se pelos vergões afora e adentro e empoçavam. O velho ficava com a cara toda irrigada de água e sal. Então vento batia contra o molhado da cara e refrescava o fardo, desafogando aquele mapa sem rumo. O velho achava graça e ria, como se já não fosse demasiada a profusão de caminhos estampados na cara.
Entremeado
Entremeados entremeios entre maios entre medos entre e saia mais ou menos entre miados macumbeiro enlameado em fevereiro cama de gato cupinzeiro balacobaco bagageiro bicho do mato atoleiro