Volumetria
S.f.1.Quím.Processo de análise quantitaviva que consiste em despejar um volume mensurável de solução titulada em volume conhecido da solução que se vai dosar, até o momento em que um indicador possibilite conhecer o término da reação.Caçada
A angústia imprime suas patas no rastro da pressa desatinada. Galhos secos estalam arranhando o silêncio surdo. Lá vem o que não se vê. Corpo ofegante irradia a ânsia do desfecho, como a pedra que circula ao redor de si a calma que rouba do lago. Potência adestrada pelo lodo manso, sufocante quietude do declíneo. Pupilas de água parada refletem a carne estraçalhada pelo destino canino. Redenção. A presa é mais aflita quando solta.
O resto imortal
Queria não morrer de todo. Não o meu melhor. Que o melhor de mim ficasse, já que sobre o além sou todo dúvidas. Queria deixar aqui neste planeta não apenas um testemunho da minha passagem, pirâmide, obelisco, verbetes numa obscura enciclopédia, campos onde não crescem mais capim.
Queria deixar meu processo de pensamento, minha máquina de pensar, a máquina que processa meu pensamento, meu pensar transformado em máquina objetiva, fora de mim, sobrevivendo a mim.
Durante muito tempo, cultivei esse sonho desesperado.
Um dia, intuí. Essa máquina era possível.
Tinha de ser um livro.
Tinha de ser um texto. Um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto pensado. Eu precisava de um teexto pensante. Um texto que tivesse memória, produzisse imagens, raciocinasse. Sobretudo, um texto que sentisse como eu.
Ao partir, eu deixaria esse texto como um astronauta solitário deixa um relógio na superfície de um planeta deserto.
Claro que eu poderia ter escolhido um ser humano para ser essa máquina que pensasse como eu penso. Bastava conseguir um aluno. Mas pessoas não são previsíveis. Um texto é.
A impressão do meu processo de pensamento não poderia estar na escolha das palavras nem no rol dos eventos narrados. Teria que estar inscrito no próprio movimento do texto, nos fluxos da sua dinâmica, traduzido para o jogo de suas manhas e marés.
Um texto assim não poderia ser fabricado nem forjado. Só poderia ser desejado. Eu mesmo escolheria, se quisesse, a hora de seu advento.
Tudo o que eu poderia fazer nessa direção era estar atento a todos os impulsos, mesmo os mais cegos, nunca sabendo se o texto estava vindo ou não.
Era óbvio, um texto assim teria, no mínimo, que levar uma vida humana inteira. Na melhor das hipóteses.
Uma questão colocou-se desde o início. A tensão da espera de um tal texto poderia ser o maior obstáculo para seu surgimento. Quanto a isto, não havia solução. A questão teria que ser vivida em nível de enigma e conflito, sigilo e dissimulação.
Evidentemente que o texto que resultasse desse estado deveria, por força, reproduzi-lo em sua essencial perplexidade. A máquina-texto que surgisse não seria um todo harmônico, já que a harmonia só convém às coisas mortas. O que eu pretendia era uma coisa viva, uma vida que me sobrevivesse. E a vida é contraditória.
Não seu mais se esse texto virá. Ou se já veio.
Tudo o que quero é que, se vier, se lembre de mim tanto quanto eu soube desejá-lo.
Paulo Leminski
Ernesto
Acordou com azia. Grunhiu se revirando na cama, ai, ai, ai, e abandonou o corpo por um instante. Latidos lá fora. Levantou-se, cambaleou para o banheiro e enfiou a cara sob a água que corria pia abaixo. Mirou o espelho. Estou péssimo. Voltou para o quarto, sentou-se na cama e ligou para o doutor. Estou péssimo. Gastrite, rinite, bursite, hepatite? Pior.
É ela, doutor, acho que ela voltou. A angústia, a falta de sentido das coisas, a hipersensibilidade, a revolta desesperada, doutor, só pode ser ela. Ernesto sofria há dois anos do mal de artista. Sua moléstia fora diagnosticada como mal de artista do tipo 2, mais conhecida como doença-de-escritor. Nas crises, era assolado por uma inventividade aguda, um fascínio exacerbado pela linguagem e uma dependência de tudo o que é belo. Os sintomas se manifestavam acompanhados ou não por explosões de humor e ira, necessidade de isolamento e uso desenfreado de psicotrópicos. Me ajude doutor, preciso me livrar desse negócio, não quero mais sofrer desse jeito, quero ser rico, não escritor. Rico, tá entendendo!?
Ernesto começara no banco há seis meses. Contratado para usar jaleco e ajudar velhinhos a apertar do jeito certo as teclas do caixa eletrônico, fora promovido dois meses depois. Na nova função, vestia camisacalçaesapato e passava o dia ”Pois, não, em que posso ajudar?” apontando aos clientes as mesas do gerente, do cara que abria contas ou a fila do caixa mesmo. Saiu-se tão bem que foi transferido para o andar de cima, onde atendia ao telefone, buscava formulários no arquivo e avisava o almoxarifado sobre os materiais que estavam acabando. Era uma carreira promissora. Ernesto estava feliz.
Solícito, ofereceu-se para trocar de turno com um colega que precisava sair mais cedo. Ernesto exerceu exemplarmente as funções do amigo (receber e encaminhar fax e correspondências, solicitar panfletos publicitários e distribuir os relatórios internos de rendimentos). Saiu do banco já à noitinha, bem mais tarde do que seu horário normal. Havia lua, que bonita. Encostou num boteco em que nunca havia reparado para reparar melhor no céu. Vontade de tomar uma. Logo estava escrevendo um esboço de poema num guardanapo. Pediu outra gelada, se meteu na conversa ao lado, gostou de uma frase que ouviu, voltou pro balcão para escrever, tomou mais outra e assim foi até que saísse varrido dali.
Chegou em casa se sentindo estranhanhamente sensível às coisas do mundo, a impressão de que era, ao mesmo tempo, órgão vital e objeto inútil. No dia seguinte, em vez de trabalhar, ficou divagando em frente à janela, pensando em qual o sentido de tudo (coisa absurda que jamais lhe viera à cabeça) e por que as mudanças da cor do céu o emocionavam tanto. Saiu para caminhar a esmo (jamais gastara sola sem saber aonde ir) e voltou com bloco e caneta novos. Começou a manter papel na cabeceira, em caso de algum arroubo literário noturno, e nunca mais passou em frente a um sebo sem dar uma espiada. Suas novas companhias ou liam o que escrevia ou escreviam o que gostaria de ler.
No banco, sentia-se agora enclausurado em meio a tanto carpete. Os fomulários lhe pareciam tediosos, o gel e a pontualidade dos colegas viraram motivo de irritação. Olhava ao redor indagando onde fora parar sua carreira promissora. Maldita doença.
Pares díspares
Minha vida ficou muito melhor desde que nos conhecemos, embora tenha piorado terrivelmente.
Diferente
Mas, espera, ninguém me falou que seria assim. Tá certo que também ninguém me disse que seria de outro jeito, mas, assim? Assim não. Sei lá, só esperava que fosse diferente. Diferente, ué, diferente. Mas não assim. Nem sei mais se dá para fazer de outro jeito. Talvez as coisas sejam assim mesmo. Talvez elas sempre tenham sido assim, eu é que achei que fossem diferentes. Achei, assim, da minha cabeça mesmo, que ninguém me falou nada. Ninguém nunca me fala nada. Ninguém nunca me fala nada desde aquela vez em que cheguei em casa e o cachorro tinha morrido. E ninguém tinha me dito nada. E eu com saudade do cachorro. Uma saudade que ainda tenho, porque morreu o cachorro e eu não matei a saudade. Também não matei o cachorro (pelo menos ninguém me disse nada sobre isso). Morreu, e foi só. Não sei por quê. Por que morreu, por que não falaram, por que as coisas seriam diferentes? Achava que fossem. Ninguém me disse que seria assim. Também ninguém me disse que seria diferente, isso é verdade. Ainda assim, não sei por que, eu achava que seria, que eu iria esfregar meus dedos no cucuruto do bicho e dar uns tapas na bunda dele até ele botar o linguão pra fora. Tudo da minha cabeça, que ninguém me falou nada que seria assim. A mesmice de imaginar tudo tão diferente. A mesmice de imaginar sempre o mesmo e viver tudo tão diferente. Tudo é sempre tão diferente que eu já deveria estar acostumada.
